Êxodo: Deuses e Reis

Por: Sônia Machiavelli

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Curiosa pela história de Moisés, cuja trajetória admirável resiste há mais de três mil anos, fui ao cinema no sábado passado assistir a Êxodo: Deuses e Reis.  Imaginava ver a cena em que o bebê judeu, colocado pela mãe num cestinho de papiro nas águas do Nilo, para que escapasse ao infanticídio decretado pelo faraó da época, é recolhido pela filha deste. Mas a superprodução do diretor Ridley Scott tem início com Moisés (Christian Bale) já adulto, criado como egípcio na corte de Ramsés I, ao lado de Ramsés II (Joel Edgerton), a quem considera um irmão, e que logo substituirá o pai. Desde o início da narrativa percebe-se que subjaz ao sentimento fraterno muita rivalidade. É bom lembrar que não se conhecem, nem nos textos históricos nem nos religiosos, os nomes dos faraós. Ridley escolheu Ramsés por questões etimológicas e eufônicas. As datas são também aproximadas e tudo teria acontecido por volta de 1300 a C, quando os judeus entravam no quarto século sob escravidão.
 
Tal como nos contam os livros do Pentateuco, os textos do Talmud e os do Alcorão, lugares de pesquisa de Ridlley, Moisés foi o maior legislador e profeta judeu, tendo conduzido seu povo, massacrado pelos egípcios e destinado aos mais árduos trabalhos, à luta pela libertação. É essencialmente desta luta que trata o filme. Ao ter sua origem revelada por uma sacerdotisa e confirmada pela mulher que o recolhera, um surpreso Moisés se afasta da corte e caminha pelo deserto de Magian. É quando tem a visão de uma sarça que ardia sem se consumir, e de cujas chamas saía uma voz que se identificava como a de Jeová, o deus dos patriarcas Abraão, Isaac e Jacó. Sentindo-se investido da missão de libertar seu povo, Moisés é agraciado com poderes sobrenaturais, que serão decisivos ao seu projeto. No filme, à voz que emana da sarça ardente e reaparece a Moisés nos momentos mais críticos da travessia do deserto, que durou 40 anos, associa-se uma imagem surpreendente de Jeová, que não corresponde à sugerida pelos livros religiosos. Jeová ordena então a Moisés que leve seu povo para Canaã, a Terra Prometida.
 
Mais do que o profeta e o legislador, o filme nos mostra o herói no seu sentido mais amplo e profundo, semelhante ao da epopeia grega, que vence todos os obstáculos depois de árdua campanha que parece transcender o humano. Ridley Scott está no melhor dos mundos, vindo de épicos como Alien, Blade Runner e Gladiador. As dez pragas do Egito, enviadas por Jeová pelas mãos de Moisés para pressionar o faraó a libertar os judeus escravizados, tornaram-se uma oportunidade de ouro para o cineasta mostrar seu talento na área dos efeitos especiais. Tendo o 3D como aliado poderoso, ele hipnotiza o espectador com as águas do Nilo tornadas em sangue; as rãs que em uma noite cobrem a superfície visível; as moscas que escurecem o ar; a peste que deixa pústulas na face dos homens; a chuva de granizo que destroi as plantações; as nuvens de gafanhotos que dizimam tudo o que é verde; a tempestade de areia que esconde o Sol por muitos dias; a morte dos primogênitos humanos, entre eles o herdeiro do faraó. Este, aterrorizado diante da avalanche de tragédias que o vitimiza e ao seu povo, resolve ceder e deixar partir o povo judeu.
 
Não termina aí o filme, que guarda para o espectador, bem mais à frente, uma cena de tirar o fôlego: a célebre travessia do Mar Vermelho. Outra, muito importante, é essencial ao entendimento da tradição judaico-cristã : a forma como Moisés recebe as Tábuas da Lei, ou Os Dez Mandamentos, título da primeira versão da mesma história, assinada em 1956 por Cecil B. de Mille. Ainda que subtraindo alguma coisa aos textos religiosos, e preenchendo as lacunas da escritura bíblica com licenças poéticas, ambos os cineastas conseguiram contar com grandeza e dignidade a saga de um líder até hoje reverenciado por judeus, cristãos e muçulmanos, assim ordenados na cronologia histórica. 
 
De volta à minha casa, depois do cinema, liguei a TV e, coincidência ou providência, me deparei com um programa da Globo News que mostrava essa região de conflitos intermináveis que é Israel. Ao ver as opiniões conflitantes e conflituosas de judeus e palestinos disputando à bala e a drones espaços daquela terra que é menor que o nosso Estado de São Paulo, me lembrei de que, no filme, Josué pergunta a Moisés, seu irmão, o que aconteceria quando chegassem à Terra Prometida. Ele reponde que lá encontrariam por certo outro povo, mas que “os judeus ali aportariam não mais como tribo, mas como nação. “ Teria sido, por acaso, o que ocorreu em 1948?
 
Foi então que me esclareceu Benedetto Croce: “Toda história é história contemporânea”.
 
 
DIRETOR VERSÁTIL
 
Há poucos cineastas como o inglês Ridley Scott, 77, que já assinou a direção de mais de vinte filmes de gêneros tão diferentes quanto Aliens e Thelma & Louise. 
 
Ele começou em 1960 trabalhando para a BBC como designer de cenário. Logo passou a diretor de TV, dirigindo episódios de séries como Z Cars e The Informer. Em 1967, deixou a rede de televisão e passou a maior parte de seus dez anos seguintes fazendo centenas de comerciais de TV através de sua produtora de comercias, RSA (Ridley Scott Associates).
 
Seu primeiro filme apareceu em 1977 e se chamou Os Duelistas. O trabalho seguinte, dois anos depois, o thriller de ficção científica Alien, O Oitavo Passageiro, transformou-se em grande sucesso de bilheteria. 
 
Blade Runner , terceiro filme, apresenta uma visão chocante de uma Los Angeles superpovoada e saturada pela mídia no ano de 2019. Na sequência, realizou A Lenda, mal recebido pela crítica, mas sucesso na TV. Perigo na Noite (1987) foi um thriller de suspense direto e bem estruturado. Scott então partiu para um thriller policial sobre corrupção que se passa em Nova York e no Japão, chamado Chuva Negra. 
 
Posteriormente, em 1991, obteve grande sucesso crítico e comercial com Thelma & Louise. E aí veio 1492 - A conquista do Paraíso, um épico sobre Cristóvão Colombo que não empolgou. 
 
Os anos 90 testemunharam o crescimento do interesse de Scott na produção. O remake de Nunca Te Amei, estrelando Albert Finney, agradou. Emendou Meu Pequeno Ladrão, que também foi bem sucedido. Após Tormenta (1996), filmou Até o Limite da Honra, com Demi Moore. Em 2000 retornou ao topo do box office americano com Gladiador, um épico romano narrando a volta de um general ao poder depois de passar pela condição de escravo. A produção foi impecável, tanto que o filme levou o Oscar de Melhor Filme.
 
Irmão do também diretor Tony Scott e pai de Jake Scott, nomes ligados igualmente ao cinema, Ridley presta homenagem ao primeiro, antes que os créditos de 
 
Êxodo: Deuses e Reis comecem a rolar na tela.
 
 
FILME
 
Título:  Êxodo: Deuses e Reis
Tempo:  2h31min 
Diretor: Ridley Scott
Atores: Christian Bale, Joel Edgerton, John Turturro
Gênero: Épico, Ação
Nacionalidade: EUA, Reino Unido, Espanha
 
 
Sonia Machiavelli,  professora, jornalista, escritora

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