A arte popular de Solano Trindade

Por: Caio Porfirio

Quando vi o Solano Trindade pela primeira vez, nos inícios dos anos sessenta, eu não quis acreditar que aquela figura fosse de fato o Solano, o grande e querido Solano, o notável poeta negro, criador do Teatro Popular Brasileiro, autor da excelente obra Cantares do Meu Povo. Era também artista plástico. Representava ele uma geração de poetas populares, de estilos personalíssimos, que tinha como figura de destaque Ascenso Ferreira, seu conterrâneo pernambucano, e incorporava outros de tendência mais folclórica, como Cornélio Pires. Mas Solano era diferente, sua poesia mais contundente, assemelhava-se ao grupo apenas no apego ao contato popular, ao interesse de levar suas mensagens diretamente ao povo. O Teatro Popular Brasileiro, por ele criado, é uma variante disto. Solano era negro, socialista convicto, e externava sua arte, quer poética, quer plástica ou teatral, com a exaltação e amostragem viva da cultura negra. 
 
Pois a primeira vez que o vi, na sede da União Brasileira de Escritores, aqui em São Paulo, onde reunia o grupo do Teatro e com ele discutia, pareceu-me um beneditino chegado de uma longa viagem. Muito mal vestido, barbicha branca, cabelos grisalhos, mãos cruzadas ao peito, andava sozinho pelo salão da sede, como se rezasse.
 
Descobri, em poucos dias, que acabara de conhecer uma grande alma. Solano, para mim, tinha a vivacidade do revolucionário quando falava e, algo de santo, quando sorria e tomava sua cachacinha. Nas rodas de conversa, manso, parecia estar sempre em grande paz. Era um vulcão com alma dos deuses africanos.
 
Tornei-me grande amigo dele. Numa das suas concorridas exposições, na sede da entidade, presenteou-me com um dos seus quadros, de linha primitivista: uma negra baiana em destaque e outras em torno dela, numa roda de dança folclórica. Integra a minha pequena pinacoteca.
 
Quando passou a residir na cidade de Embu, município próximo da capital, fui lá muitas vezes. Ele fez da cidade ponto turístico, porque levou consigo muitos artistas e o seu Teatro Popular Brasileiro. 
 
Numa das vezes em que o visitei encontrei-o doente, sofrendo um reumatismo infeccioso, que progredia rapidamente. E ele não podia melhorar porque não largava mão da sua cachacinha. Não era alcoólatra. Apenas tinha por companhia aquela pinguinha, que tomava com parcimônia. 
 
Estava proibido de beber. Pois nessa visita segredou-me:
 
- Caio, leve-me até o bar da esquina.
 
- Você está proibido de beber, Solano. 
 
- Só uma. Disfarça.
 
O grupo teatral ensaiava em grande área vizinha à sua casa. Saímos de mansinho. Foi grande o meu espanto: ele mal podia andar, as pernas duras. Amparava-se ao meu braço.
 
Tomou a pinga, voltou e agradeceu com uma piscada de olho.
 
Poucos anos antes, quando o golpe militar estava por acontecer, assistimos do alto do 13º andar da sede da UBE, um grupo de ‘senhoras marchadeiras’ que se dirigia à Praça da República para mais um comício contra o governo de João Goulart. Ele apontou-me escandalizado:
 
- Veja, Caio, veja aquele coitado.
 
Na rabeira das perfumadas senhoras, lá ia um pobre homem, esfarrapado, imundo, com uma bandeirinha brasileira na mão, fazendo coro com as madamas. Solano não se conformou. Correu à biblioteca, que utilizava como escritório, escreveu a lápis alguma coisa num papel, voltou e me entregou:
 
- Tome. Este é o retrato daquele pobre tolo. Leia. Fique com ele. 
 
Li. Um pequeno poema antológico, saído de repente da sua revolta de socialista histórico diante do que assistia:
 
João
 
Que merda é a vida do João!
 
Não tem o que comer, 
 
Não tem o que calçar, 
 
Não tem o que vestir, 
 
Não tem onde dormir, 
 
Não tem com quem amar
 
- E é anticomunista . . . 
 
Mostrei o poemeto a todo mundo e passei a cópia dele a sua filha Raquel, bela artista plástica. Guardei o original comigo em algum lugar. Nunca mais o encontrei. Está em alguma pasta do meu arquivo.
 
Onde, meu Deus?
 
 
Caio Porfirio,  escritor,  crítico literário, secretário administrativo da União Brasileira de Escritores, ganhador do Prêmio Jabuti
 
 

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