A palavra:

Por: Maria Luiza Salomão

Escolho uma palavra norteadora para o ano que inicia, como quem usa um talismã, ou faz votos de mudanças. Palavra enquanto bússola. 
 
2014 a palavra foi harmonia. Considerando todos os “considerandos” o ano que se foi se encerrou harmonicamente, entre mortos e feridos, projetos nascentes e mortos (de morte súbita ou anunciada), como um rio a correr para o mar. Nada sabemos do futuro e seus mistérios: o que parecia dever continuar, estanca; o que parecia dever estancar, continua. Nada a lamentar, portanto. O mundo, e o Brasil também, tem tateado a harmonia. Atenção: para harmonizar, urge conhecer os extremos. 
 
O Brasil, particularmente, tem tido um duro aprendizado de democracia, regime experimentado precariamente, desde a proclamação da República. Democracia é meta a atingir, considerando a desigualdade social do país-continente, e a falta de investimento em setores básicos como moradia para todos, saúde e educação. Estamos engatinhando, em matéria democrática. Engatinhar não é ficar parado, manquitolar não é a mesma coisa que voar, mas demonstra algum tipo de movimento em direção a.
 
Uma palavra começou a brilhar, como advento dos meus mistérios íntimos. Aconchego. Que linda palavra! Chegar junto com alguém, palavra-verbo, palavra-ação, que advém substantiva. 
 
Aconchego para os olhos: beleza. Aconchego para as mãos: carinho. Aconchego para os ouvidos: música. Aconchego para o nariz: aromas. Aconchego para a pele: intimidade. Aconchego para a alma: amizade. Aconchego para a humanidade: respeito e paz. Aconchego no nosso país: reconhecimento das diferenças culturais e pessoais, em termos de educação, posição econômica, social, espiritual. 
 
Sabendo das limitações e das potencialidades de uns e outros, aconchega-se morosamente - no casament o, nas amizades, nos projetos em comum.
 
Com perseverança, determinação, fidelidade aos princípios, será preciso, para aconchegar, aprender a compartilhar: saber que parte me toca e que parte toca ao outro, a função de um e de outro, no contexto próprio e geral. 
 
Compartilhar é difícil: desafio à nossa arrogância, ao que julgamos tiranicamente considerar a “única e real verdade”, desconsiderando crenças e fantasias, credos e cultos, referências e signos, que contrariam nossos desejos absconsos. 
 
Somos porcos-espinhos: como cuidar da aproximação, para obter um calor salvador para o inverno (inferno?) de solidões? Para se esquentarem, os porcos-espinhos cuidam que os espinhos não firam aqueles a quem querem se aconchegar...
 
Aconcheguemo-nos, respeitando os espinhos impeditivos de bom convívio: “querer ter sempre razão”, “crer que o mundo gira em torno do meu desejo”, “ter pesos e medidas diferentes: para mim, para tu”. 
 
Sabedores de que temos cantos diferentes, fadados a tocar, com instrumentos de timbres diferentes, e diferentes afinações, juntos na mesma orquestra. Compartilhar é esforço de seguir um só diapasão: aconchego de múltiplos vozeares. 
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)
 
 

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