Acalanto

Por: Eny Miranda

Ano ido, ano vindo. 
 
“Vai-se a primeira pomba [...]... / Vai-se outra mais... mais outra...” Vão-se todas, da primeira à última. Consumadas as festas de adeuses e boas vindas, congratulações familiares e universais; filhos, noras, netos, chegados de longe; família reunida... todos se vão. E se foram todos. Na casa, apenas ecos de abraços, risos, histórias de diferentes pontos de vista e de mundo; elos de vozes queridas, halos de alegria pela ventura de ouvi-las; aromas de afeto. Na alma, a saudade, que se pusera à espreita em um cantinho qualquer, agora começa a tomar o seu lugar novamente.
 
Acostumei-me com esta companheira de tantos anos - discreta, tímida, recolhida, quando estou cercada dos queridos, esperados, desejados, finalmente chegados; solidária, se me percebe só. Quando todos se vão, sai do esconderijo, e conversamos, as duas, sobre as boas coisas vividas com eles, ‘os nossos’; sobre a fortuna de tê-los, e de poder sentir a sua falta, porque os amamos; sobre a certeza de que eles sempre retornarão, também por amor. E existe coisa melhor e maior do que o amor? - E o telefone, o Skype, o WhatsApp, o e-mail... quando a serviço do amor?
 
Hoje, cedinho, recebi uma foto da neta caçula, Júlia, sorridente, luminosa, encarapitada em uma robusta mangueira. Enviou-a ela mesma, com a legenda: “Manhã em Mimoso”. Depois, chegaram outras: um tatu se escondendo na terra, um macaco descascando banana... É que o pai levou-a a passear na Usina de Mimoso (uma das muitas que visita, Brasil afora, em consultorias, encargos e preocupações): momento de leveza, para ele, e de conforto, para mim. Disse-me que outras fotos virão, e vídeos também. Alguém observa que Mimoso fica em Ribas do Rio Pardo, MS, a muitos quilômetros daqui. E completa: “Tão longe...” 
 
Nem acabei de pensar sobre tais espaçosas quilometragens e me aparece outra foto, desta vez, de uma distância muito maior (e há distância entre os que se amam?): chega do filho “suíço”, que beija, amoroso e orgulhoso, a primeira filhinha, ainda aninhada nas entranhas da mãe. E logo surge outra, a de uma janela envidraçada: no parapeito, o nome NICOLE (assim mesmo, em maiúsculas) riscado na neve. Depois, sobre um ventre intumescido de vida, vão se desenhando na tela: dois sapatinhos brancos de lã, um botão de rosa, um casaquinho... Sinto-me lá, igualmente abrigada neste ninho cálido, entre filogenias e ontogenias: sou parte essencial da netinha, imersa no rito milenar de criação da vida. Estou diluída em cromossomas, DNAs, genes - marcas de ancestralidade, laços de sangue, bens de família. Logo, por com/partilhamento, ou eco, reverberação; em movimento de comunhão, ou de reflexão, Nicole também está em mim e, com ela, todos os nossos aqui estão. Pacificada descubro que, como no poema de Raimundo Correia, “No azul da adolescência as asas soltam,/ fogem... Mas aos pombais as pombas voltam”. 
 
Minhas pombas, “serenas,/ ruflando as asas, sacudindo as penas,/ voltam todas em bando e em revoada...”. E permanecem aqui. Na verdade, nunca se foram. Suas presenças, corpóreas ou não, estão e estarão sempre vivas e acalentadoras - berceuses - em alguma parte de mim.
 
 
Eny Miranda, médica, poeta e cronista
 

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