Notas soltas

Por: Everton de Paula

ALPENDRE
Alpendre é palavra de origem incerta, encontrada em registros do português arcaico (séc. XII XVI) como alpender. Trata-se de um dos cômodos de edifício residencial, construído como entrada à sala principal da casa. Não tem paredes ou janelas, apenas colunas que o sustentam e o portão, de ferro ou madeira, que dá para a calçada. Um lugar assim arejado era comumente buscado pela família para refrescar-se.
 
Nas salas de visita davam-se as visitas formais ou familiares para longas conversas, regadas a café, chá e bolinhos. Nos alpendres, o parco mobiliário duas ou três cadeiras, às vezes uma mesinha de centro predispunha a uma brevíssima interlocução com o vizinho ou visitante. Sua função principal era a de servir como local para arejar-se, tomar a brisa do entardecer, quase noite, iluminação fraca, e conversas cheias de parênteses.
 
Falo sobre este cômodo porque tirei uma foto de uma residência construída nos anos 50, recém restaurada, com imponente alpendre. Postei-a no Facebook e fiz menção ao cômodo. Houve, para minha surpresa, mais de um comentário com teor parecido a “Alpendre? Nunca ouvi falar. O que é um alpendre?”
 
Não se constroem mais casas com alpendre. O lugar gentil que tão bem servia à família deu espaço a muros altíssimos, com cercas elétricas e rolos de arame farpado, em busca de proteção contra assaltantes. Triste época essa de hoje!
 
 
INSÔNIA
Quem dorme como um bebê, não tem bebê em casa.
 
 
QUANTO A FRACASSOS
Fracassado é o homem que erra e não é capaz de aproveitar a experiência para tentar novamente, e outra vez, até acertar. Há muito a ser dito em favor do fracasso. Ele é mais interessante do que o sucesso. Quantas figuras históricas fracassaram várias vezes, com um só intento, até atingir seu objetivo? Thomas Edison sempre respondia aos seus críticos: “Não foi mais um fracasso; na verdade, descobri mais uma maneira de não inventar a lâmpada elétrica.”
 
Não existe fracasso, a não ser a desistência de continuar tentando com criatividade e flexibilidade. Dizia Henry Ford: “Fracasso é uma oportunidade de começar novamente, com mais inteligência e experiência.”
 
Quando fracassar numa próxima tentativa, vá em frente, fracasse; mas com espírito, com graça, com classe. Um erro medíocre é tão insuportável quanto um sucesso medíocre. Abrace o fracasso. Busque-o. Compreenda-o como a ante-sala do sucesso. Aprenda a amá-lo. Talvez seja a única maneira de alguém vir a ser livre.
 
 
GATUNOS
‘Não sou um escroque’ (=ladrão), disse Nixon em 1973 ao Congresso e povo norte-americanos. Todo mundo sabe o resto da história de Watergate. Agora vem Carvalho, ex-ministro petista, e diz, ao se despedir no Planalto: ‘Não somos ladrões!’ Não é sintomático? Ato falho ou fraude explica?
 
 
O PÊNDULO
Pensando bem, o pêndulo de um relógio não se movimenta num andamento de vai e vem. Se assim fosse, as horas não passariam. Raciocine: “Vai!”, e lá se foi um segundo. “Vem”, o segundo que se foi torna a voltar e tudo fica na mesma. Ou seja, os segundos vão e vêm. Está errado. O movimento certo de um pêndulo de relógio é “vai e vai”... Somente assim, os segundos, os minutos e as horas esvaem-se. 
 
Aprendi esta num curso de andragogia, com o instrutor professor Jerônimo Sérgio Pinto.
 
 
FAZ SENTIDO
Toda vez que o menino ia à casa de um colega de classe, encontrava a avó do amigo mergulhada na Bíblia. Afinal, não conseguiu dominar a curiosidade e perguntou:
 
- Por que será que sua avó lê tanto a Bíblia?
 
- Não sei respondeu o amigo mas acho que é porque ela está estudando para o exame final.
 
 
EXPLICANDO MELHOR
Verdade acadêmica, atualmente muito facilitada pela vastidão dos recursos encontrados nos sites de busca da Internet: roubar ideias de uma só pessoa é plágio. Roubar de várias passa a chamar de pesquisa.
 
 
ENFIM
Recebi um belo texto que fala da diferença de ocorrências na vida de um casal que assiste à televisão, desde quando uma mulher diz: “Estou cansada e já é tarde; vou me deitar” e desde quando o homem anuncia “Vou me deitar”.
 
É arrolado tudo o que ela faz nesse ínterim e comprovada a rapidez com  que o homem cai na cama. Nós homens temos mais é que ficar encabulados com o excesso de trabalho delas. Parece que muitos casais mais novos dividem melhor as tarefas. Eu, porém, tenho de confessar: sou de uma geração vergonhosamente comodista e injusta para com as esposas no capítulo dos afazeres domésticos.
 
O final tem uns tons de apoteose feminina: Ainda perguntam por que é que as mulheres vivem mais? PORQUE SÃO MAIS FORTES... FEITAS PARA RESISTIR...”
 
 
Everton de Paula, acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 43 anos
 

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