O poeta e o cantadô Uma odisseia caipira

Por: Sônia Machiavelli

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Entre o prefácio de Cesar Nazar, que define a arte de Paulo Gimenes como capaz de inspirar e fazer refletir, e o primeiro conto, chamado Queixas de um contadô de causos, Paulo Gimenes, autor do livro cujo título é o desta página, introduz uma frase de outro poeta, Manoel de Barros: “Noventa por cento do que escrevo é invenção. Só dez por cento é mentira”. É uma blague, das muitas que fizeram a fama do mato-grossense recentemente falecido. E como tal capaz de levantar os lábios do leitor num sorriso breve, como a se perguntar: será? 
 
A literatura é uma arte misteriosa, que se funda a partir de experiências que às vezes nada têm a ver com o que se escreve. Assim imagino a maior parte da ficção de Paulo Gimenes nos contos do volume lançado no último dezembro. Suas narrativas, em grande parte breves, têm sagas e personagens fincados num espaço rural que desaparece aos poucos, tragado pelo desenvolvimento mal planejado do país,  que há muito deixou de ser eminentemente agrícola.
 
A população cresce, migra do campo para os centros urbanos, busca trabalho nas cidades cada vez mais inchadas. Mas leva consigo, tanto quanto as histórias ouvidas de pais e avós, um jeito de falar que, no caso deste nordeste paulista, tem muito do sul de Minas Gerais. Pois até não dizem que Franca é um pedaço de São Paulo ocupado por mineiros? Nossa prosódia é o atestado cultural mais expressivo desse intercâmbio de experiências. É ela, tratada de forma literária, que caracteriza o estilo de Paulo Gimenes, pesquisador interessado no falar de segmentos de nosso povo que ainda se mantêm impermeáveis às influências da prosa citadina, contaminada por diferentes fatores . Grande mestre da Filologia, dos maiores nomes da Etimologia no Brasil, o saudoso professor João Alves Pereira Penha, com quem muitos universitários francanos aprenderam a pensar com mais profundidade os fenômenos linguísticos, já escrevia nos anos 80 a respeito deste fenômeno que é a evolução mais lenta do idioma nos rincões afastados. Um de seus livros registra o fato linguístico que é a fala caipira, de que as histórias curtas de Gimenes são exemplares. Reproduzo os dois primeiros parágrafos do conto que abre o livro:
 
“Dizem que os caipira, que os contadô de causo, é tudo mentiroso. Que mardade! Pura ingnorância do povo da cidade, dessa gente que não querdita, que acha que tudo é lenda, tudo crendice popular(...) Imaginem ocês que saci-pererê, lobisome, boitatá, pr’eles é tudo um tar de forclore, que o boto nem num vira home formoso, que vai pros baile da roça de terno de linho branco e chapéu e que tira as donzela pra dançá, que enfeitiça as donzela, que encanta as donzela inté a donzela deixá de sê donzela. Dizem que é mentira pra cubri as sem-vergonhice das moça.”
 
A supressão do fonema s nos plurais; a subtração do r e do m  finais; a troca do som l pelo r; a elisão do v no pronome de tratamento você , que vem evoluindo desde o século XVIII a partir da forma vosmicê , por sua vez oriunda do quinhentista vossa mercê- são alguns dos exemplos clássicos desse nosso português que ainda evoca longínquos traços arcaicos. Junto a este resgate linguístico importante,  o autor empreende a busca de histórias que se mantêm permeando o imaginário popular e revelam heranças europeias, africanas, indígenas. O tom coloquial, de quem bate um papo descontraído, é característica expressiva da prosa do autor, que avança em criações pessoais e alça voos românticos em Marlene e Piolim; constrói metáforas frescas em Amigo é planta; faz crítica social em Dia de Faxina;  investe em memórias líricas no bem estruturado Eu tinha um tio...O humor também é traço estilístico importante ao contribuir para a leveza de contos de tom fortemente autoral  como O doce do capeta, Pode fumar lá no céu?, O padre sem paciência , A geringonça que guspia dinheiro, Papai matou uma assombração , Os fantasmas Bilevis, entre vários. 
 
Um conto clássico, com sua estrutura linear e ordem cronológica, ganha maior valor na forma como é contado. Por isso se diz que todo contador é um poeta que sabe inscrever nas entrelinhas uma emoção específica. Paulo Gimenes é a maior expressão desse aforismo que transparece no título de seu recente lançamento.
 
Os trinta e sete contos e alguns poemas que compõem O poeta e o cantadô/ Uma odisseia caipira, leem-se com o mesmo prazer com que se ouvem as 15 canções do CD que acompanha o livro e resultam de felizes parcerias do autor com artistas conhecidos dos francanos, como Tunico Magno, F. Jaiter, M. Prado, I. Brasil. Tiago Leitonez, Grupo Balaio, Canário e Passarinho. 
 
A capa, linda pelo poder sugestivo, traz a assinatura de Vítor Fonseca e ajuda a compor as áreas imagéticas do universo buscado pelo autor. E nunca é demais lembrar a etimologia tupi da palavra caipira, presente no título e no espírito da obra. Ela nos remete diretamente para o morador do mato. Mas um mato que, no momento histórico do registro, já não era mais selva e sim mata. Aquela onde foram engendrados os antepassados dos protagonistas da maioria dos contos de O poeta e o cantado. Cada conto é uma conta no colar que é a odisseia relatada pelo autor.
 
 
ARTISTA MÚLTIPLO
 
Paulo Rubens Gimenes nasceu e mora em Franca. Tem 50 anos, é casado e pai de duas filhas. Formado em Comunicação Social pela Unifran, profissionalmente atua na área de produtos para calçados e no mercado publicitário. Já assinou vários jingles em Franca e região. O cotidiano atribulado não impede que Gimenes arrume tempo para atuar na área artística em suas duas paixões: a música e a literatura. Na música, foi atuante nos Festivais de Música do Estado de São Paulo e lançou dois CD’s , Letra e Música, em 2008, parceria com o músico Tunico Magno, e MCB- Música Cidadã Brasileira, lançado de forma independente em 2012 e relançado com o apoio da Secretaria do Estado da Cultura de São Paulo em 2014. Mesmo na área literária Paulo não abandonou sua paixão pela música; sua primeira obra - o livro de poesias Poemas para Cantar, Músicas para Ler (2010) vem acompanhado de um CD que demonstra o belo processo de transformação das poesias em canções. A mesma fórmula, um livro/cd, é usada em seu mais recente trabalho O Poeta e o Cantadô/ Uma Odisseia Caipira. Atuando em áreas artísticas como a literatura, num país onde pouco se lê, e na música regional, fora do contexto comercial atual e estando longe dos grandes centros culturais do país, a produtividade do artista chega a impressionar. A quem possa interessar, Paulo Gimenes dá a dica: “Vivo adaptando para minha vida o conto de fadas A Cigarra e a Formiga. Na fase de criação de uma obra alimento a ‘cigarra/dom’ e quando vou viabilizar o projeto, concretizar o sonho, alimento mais a ‘formiga/trabalho’”. Paralelo aos seus projetos, Gimenes ainda escreve para oeste caderno Nossas Letras do Comércio da Franca e revistas regionais, compõe jingles, cria campanhas publicitárias e está sempre disposto a enfrentar desafios que exercitem sua criatividade artística. 
 
 
FILME
 
Título:  O Poeta e o Cantadô- Uma Odisseia Caipira
Autor: Paulo Rubens Gimenes
Editora: Ribeirão Gráfica
 
 
Sonia Machiavelli,  professora, jornalista, escritora

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