Dona Jô, a velha, escapa para a vida

Por: Mirto Felipim

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Ao abrir a mão levemente trêmula e deixar cair algumas migalhas de terra sobre o caixão de seu último bisneto de uma geração de treze, Josélia Meireles dos Reis, Dona Jô, pensou estar enterrando seu último filho, dos sete que criara, junto com netos e agregados, como sempre pensava ao enterrar alguém nos últimos trinta e um anos.
 
amparada por dois tataranetos, abandonou o cemitério, tentando saber o  porquê de estar naquele lugar outra vez, e quantas outras ainda haveria de voltar sem motivo algum. 
 
da enorme prole, restavam-lhe agora somente os nove tataranetos, dois dos quais sumidos no mundão de meu Deus. mas ela sequer sabia. depois de ter mergulhado na névoa cerebral inexorável de sua indesejável longevidade, tinha certeza de que quem a acompanhava e zelava por seu desvario eram sempre os filhos ou netos, apesar destes já estarem há muito tempo sepultados na terra dos homens e, até mesmo, no pensamento dos descendentes.
 
colocada em uma cadeira na varanda da ampla e antiga casa, frente ao jardim que tanto amava, ficou observando o infinito, como sempre fazia quando de olhos abertos.
 
 não sabia que na sala seu destino era decidido por sete bisnetos e algumas esposas, como também não sabia a razão de seu neto Josué tê-la visitado mais uma vez na noite anterior.
 
a questão colocada era quem cuidaria de Dona Jô dali para frente. nunca havia sequer sido considerada na família a ideia de interná-la em algum asilo, por melhor que fosse a reputação.
 
o fato é que também nenhum deles havia enfiado a mão no bolso para ajudar em nada. mortos os filhos e netos, o último bisneto, recém-enterrado, era quem arcara com todas as despesas e esmeros, além de carinho obsessivo para que nada faltasse à matriarca.
 
- pra mim não tem jeito. moro sozinho, tenho cachorro e trabalho demais. gosto muito dela, mas não tem como.
 
Dona Jô conversava agora com uma das filhas. falava da chuva no dia anterior e da beleza de suas roseiras. perguntou por Josué. por que não ficara para dormir? chegara e partira tão rápido. prometera voltar logo, mas esses meninos são tão avoados.
 
- tem dó, né? nunca pedimos nada pro seu pai, e ele morreu enterrando todo o dinheiro que ganhava aqui. agora não é justo que tenhamos de tomar conta dela. 
 
a filha a sossegou. ele voltaria logo sim. estava viajando, mas logo estaria com ela.
 
- nós não temos como ficar com ela. melhor encararmos agora. como poderíamos cuidar de uma velha totalmente incapaz?
 
Dona Jô, sorrindo, recordava o que Josué fizera ontem. brincando no jardim, apanhara uma rosa amarela, sua favorita, machucando o dedinho, para levar para a bobó, como dizia com sua linguinha ainda destreinada.
 
- vamos ser diretos, vendemos a casa e internamos a velha. ela não deve durar muito e o dinheiro da venda deve dar pra mantê-la internada.
 
- olha como fala da minha tata.
 
finalmente, com a concordância geral, decidiram pelo futuro daquele estorvo. já era noite de novo.
 
com um sorriso tímido Dona Jô percebeu a presença de Josué.
 
sabia que voltaria disse para ele. abraçou-o como náufraga, beijou-lhe miudamente o rosto. sentiu o cheiro de sua fragrância inconfundível. ele estendeu-lhe as mãos.  – vamos, vó, eu te ajudo. arribou-se dando as duas mãos ao neto que a amparou no peito com um terno abraço.
 
- vamos lá, botar ela na cama. até tudo se ajeitar a gente vai revezando pra ficar aqui. felizmente a lista de remédios com os horários está pregada na geladeira e no armário da cozinha.
 
com muito cuidado, para não assustá-la, tentaram acordá-la. – tata! – acorda, Dona Jô, acorda! – vamos comer e dormir. acorda, tata!
 
mas a Tata Jô já estava muito bem acordada. junto com Josué, de mãos dadas, escapava pela estrada de uma vida nova, livre da carcaça que tanto incomodava a derradeira geração.
 
 
Mirto Felipim, poeta, observador, escritor.

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