Uma nova Torre de Babel

Por: José Borges da Silva

Não sei bem se é coisa do choque de gerações, ou se é sinal dos tempos, mas tenho notado algo estranho no nível atual de comunicação entre as pessoas. Não essa dos meios eletrônicos, por recebermos algumas mensagens e não entendermos nada. Isso é natural porque, desde meados do século passado houve uma espécie de liberação da juventude dos velhos padrões estabelecidos. Desde os encontros para shows de rock, a partir dos anos 1950, do surgimento dos Beatles com seus cabelos longos e das bandas dos anos 1960 em diante, foi inaugurada uma nova forma de ver o mundo e de se comunicar que sempre causou embaraço às gerações anteriores. Desde então se verifica que há menos uniformidade na forma de ver a realidade. Por isso, a conversa cifrada do I-Phone é coisa menor.  Não é disso que falo. Tenho notado algo mais sério. Essa liberdade de ver e se portar conforme os próprios desígnios parecem estar gerando distanciamento entre os vários grupos criados em torno de filosofias, religiões e outras formas de agregação. Por isso, há pessoas transitando no mesmo espaço, mas vivendo mundos diferentes. Dou exemplos. Na última semana, em um jornal de TV, vi uma entrevista com um adolescente de uns vinte anos. Perguntado sobre leitura, o jovem respondeu que lê mensagens que recebe pelo celular, ou pelo I-Phone. Sobre livros, respondeu com naturalidade que nunca leu nada. Que não tem tempo. Sobre o aquecimento global, disse que não tem ideia clara do que seja, porque está ocupado com outras coisas. Sobre esse tema que me preocupa, o aquecimento global, ouvi duas pessoas conversando no Fórum. Uma dizia: “isso não te parece exagero? Sempre houve seca, não é mesmo?” A outra: “Para mim isso é coisa do outro plano. É carma. Eu não tenho dúvidas: é expiação dessa geração reunida para ajuste de contas...” Ouvi, ainda sobre o tema, de um grupo de ufólogos, que o aquecimento global é coisa de cientistas diabólicos, orientados por alienígenas, que têm plano para reduzir a população da Terra, que teria crescido demais e perdido qualidade... Por último ouvi de fundamentalistas que apoiam o governo atual, que tudo é parte de um plano das elites do mundo, que querem acabar com os pobres, que são os que perdem com as alterações do clima. Conclusão: no contexto geral isso parece uma nova versão do episódio da Torre de Babel. Aliás, de certa forma lembra também as visões de São João em outro episódio bíblico famoso: o Apocalipse. Um monte de coisas malucas! Nesse contexto, eu que vivo tentando promover debates sobre a questão ambiental, me sinto como o outro São João também da Bíblia, o Batista: um sujeito meio maluco pregando no deserto!
 
 
José Borges da Silva , procurador do Estado e membro da Academia Francana de Letras
 
 

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