Garito

Por: Luiz Cruz de Oliveira

A paciência do meu pai ignorou minha  ansiedade, chegamos atrasados ao campo, o jogo já começara.
 
Eu tinha, então, dez anos de idade e assisti, naquele domingo, à primeira partida de futebol profissional. Franca duelou contra Uberaba, no estádio Coronel Nhô Chico.
 
Nosso atraso impediu acesso às arquibancadas de cimento, já totalmente ocupadas. O recurso foi permanecermos em pé, apoiados na mureta de tijolos, de mais ou menos um metro de altura, que separava o público do gramado. Ficamos a mais ou menos quinze metros de distância do gol que se localizava do lado da entrada do campo. Dali podíamos ver perfeitamente as jogadas que aconteciam dentro da grande área e nas proximidades do gol. Assim, na etapa inicial,  encantaram-me sobretudo as finalizações do centro-avante Tonho Rosa. No segundo tempo, o que me arregalou os olhos foram as defesas estupendas do Garito, o goleiro da Associação Atlética Francana.
 
A Terra deu muitas voltas ao redor do sol, deu muitíssimas voltas em torno de si mesma, a Lua ficou cheia incontáveis  vezes. Enquanto isso, eu virei jovem, fiquei adulto, ingressei na maturidade e rodopiei mais que pião em mão de menino. Exerci profissões diversas, conheci terras distantes.Mas, um dia, voltei a Franca, aos campos de várzea, fui jogar futebol na equipe do São Paulo, da Vila São Sebastião.
 
Num domingo - manhã fria, campo de terra, ventania forte - meu time enfrentou equipe  lá do Jardim Guanabara cujo melhor jogador se chamava Edgar. Observei, desde antes do início da peleja, que todos os meus colegas se referiam ao Edgar com admiração e respeito. Após a derrota de meu time, sabia o porquê da coletiva admiração pelo jogador adversário. Raramente eu encontrara, até então, algum atleta amador capaz de chutar igualmente com ambas as pernas e ainda ser hábil cabeceador.
 
Tempos depois, convidado por Delfino, o dono do time, fui jogar no Nacional, equipe constituída quase que exclusivamente por jogadores lá da Boa Vista. Ali, joguei ao lado de Edgar, pude comprovar suas habilidades, adquiri a certeza de que o rapaz não se tornara jogador de futebol profissional unicamente por outras opções de vida. 
 
Sei também hoje que só não nos tornamos mais amigos por causa de seu temperamento retraído. Apesar disso, ambos sempre soubemos de nossa mútua estima.
 
Eu já deixara de jogar futebol há muito  quando soube que o Edgar era filho do Garito, figura nítida nas lembranças da minha infância, sobretudo da primeira partida de futebol profissional a que eu assistira. Assim, quando publiquei, em livro, uma crônica em que focalizava o lendário goleiro, saí à procura do Edgar. Localizei-o no trabalho, em supermercado próximo à igreja de São Benedito. Entreguei livros para ele e para seu pai.
 
Hoje, querendo prestar última homenagem ao Garito, fui até ao velório São Vicente de Paula. Qual não foi minha surpresa: na tabuleta em que se indicava nome do falecido e horário do enterro, não constava o nome Garito. Alguém, solicito, esclareceu-me:
 
- O nome do Garito era Edgar.
 
Escondi a surpresa, rezei pela alma do Edgar pai.
 
Abracei ternamente o filho Edgar.
 
 
Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras
 

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