Boas risadas

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

Sua figura, na juventude, não ficava distante da beleza e do brilho de Apolo, o deus mitológico. Alto, forte, tez morena, cabelos lisos e fartos, olhar penetrante e demorado, boca grande e sorriso solto onde se viam dentes claríssimos e bem cuidados, como tudo o mais, palavras, gestos, postura e roupas. Denotava procedência refinada, muito zelo e recursos. Chegou até nós, trazendo pelas mãos uma mocinha trigueira, lépida e graciosa como uma avezinha. Em breve, a risada dele sobressaía entre os variados murmúrios, das muitas vozes juntas dos presentes. Por muitos anos ela o acompanhou, marcando sua personalidade extrovertida, até cessar e transformar-se em choros compulsivos, gritos e uivos de insensatez. Sua vida tomara outro rumo, de sofrimento, dependência e infelicidade. Seu primeiro amor não se consolidou e, casando-se com outra, não conseguiu equilíbrio e força para corresponder às exigências de um relacionamento amoroso. Sua mulher o deixou, mas a família o acolheu. Foram muitos anos de esforços, tentativas frustradas até que ele venceu a si mesmo, descobrindo seu próprio caminho. Como tudo muda na vida e para viver é preciso mudar, ele mudou sua vida. Na condição de ser humano livre, capaz de fazer suas próprias escolhas, fez a escolha certa.  A risada que o caracterizava voltou e é ouvida nas reuniões que faz com seus amigos e nova companheira. Com sua presença forte e soante, a risada intercala suas longas falas. No último dia do ano, fez-se presente madrugada adentro. A lua recolhia-se, a manhã surgia, ela sonorizava as alegrias do falante em som cheio, robusto, intenso. Prolongava-se por muitos segundos, agradável e melodiosa. Alguém poderia se sentir incomodado. Não incomodou a quem tem esperança e acredita no ser humano. Este detém recursos infindáveis em sua mente, que se acionados podem transformar toda uma existência. O direito de ser feliz nos acompanha até nossos últimos dias. A vitória sobre nós mesmos é superior a qualquer outra vitória. Boas risadas!
 
 
Maria Rita Liporoni Toledo, professora
 
 

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