Ensainho

Por: Maria Luiza Salomão

Sempre gostei de ensaísta, mesmo antes de saber o que é, literariamente, “ensaio”: Michel de Montaigne, o inventor do gênero, Ralph Waldo Emerson; Sigmund Freud. Reuni, no meu livro a alegria possível, alguns escritos publicados no suplemento Nossas Letras, durante dez anos, e observei uma temática recorrente. Em ângulos diferentes, a “prova dos nove” para o poeta Oswald de Andrade: alegria. A possível, claro.
 
Cotidiana e misturadamente, fala-se da busca do prazer, de alegria ou de felicidade, como se fossem a mesma coisa. Como se fosse um lugar, espécie de Olimpo, Shangri-la, em que, uma vez alcançado, seria possível viver, como nos contos de fadas, felizes para sempre. Anseio humano, por excelência: ser feliz permanentemente. Já que somos mortais e temos sabedoria parcial do mundo (e de nós mesmos), ensaio ideias, ensaio pensar o mundo, me pensar, ou pensar situações, para ampliar a percepção, a imaginação, resgatar memórias ou o próprio sentir, para escolher palavras precisas, preciosas, a configurar continuidades, como um rio, riacho, ribeira. 
 
Da vida sabemos aos pedaços (e não por inteiro), mas vive-se flutuando na corrente...passam-se dez anos, quinze, vinte, quarenta anos, e, por vezes, acordamos, assustados com o vivido e o não-vivido! 
 
Perdi o temor paralisante de publicar o meu pensar ensaiado, quando alguns se interessaram. Raramente conto histórias, e os personagens, se e quando aparecem, beiram a ficção. O personagem que mais comparece é o meu olhar. O cenário de alguma história, se há, é montagem, edição de sentimentos, que vêm em gotas ou em tsunami súbito. 
 
Quando as palavras conduzem, elas levam quem escreve para alguma borda do infinito, que as próprias pernas não vão, e as mãos não tocam, mas o coração sente e apalpa o abismo. 
 
Meus ensaios são sem pompa, com circunstância, “ensainhos”, iluminuras do sentir prosaico; ideias-pipoca; frutinhos maduros, ou “de vez”, esparramados no chão da alma; mudas de um viveiro que conservo para enraizar em algum canto, um dia. 
 
A vida se me dá em miudinhos gestos e pequeninos passos, segundinho a segundinho. Assim sinto, assim escrevo. Sei que a vida acontece na boca de cena, não tem jeito de fazer de novo, consertar a fala, retirar o que se disse ou o que se fez. 
 
É zás: e depois que escrevo, acabou o ensaio, se publico o dito, maktub, era o que tinha que ser escrito, e o escrito foi lido, e quem leu, levou... para onde? 
 
Escrever é igual a viver. Ensainhos envelhecem a minha pena. 
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)
 
 

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