Ora (direis) ouvir crianças!

Por: Sônia Machiavelli

Deserto é uma floresta sem árvores. Relâmpago é um barulho rabiscando o céu. Sono é saudade de dormir. Felicidade é uma palavra que tem música. Rede é uma porção de buracos amarrados com barbantes. Cobra é um bicho que só tem rabo. 
 
 
As frases acima são algumas das centenas colhidas por Pedro Bloch, que escrevia nos anos 80 uma coluna com o título Criança diz cada uma! nas revistas Manchete e Pais e Filhos. Ucraniano naturalizado brasileiro, foi um desses humanos contemplados com vários talentos, todos desenvolvidos com excelência. Pediatra, ouvia pequenos pacientes com atenção afetuosa, o que lhe possibilitou coletar preciosidades que rechearam muitos de seus livros. Teatrólogo, assinou uma peça da qual francanos de minha geração se lembrarão, já que encenada inúmeras vezes na cidade por Orlando Dompiere: As mãos de Eurídice. Ficcionista, criou narrativa com protagonista extraordinária e popular, Dona Xepa, que migrou dos palcos para o rádio, o cinema e a televisão.
 
Pedro Bloch morreu há 10 anos, aos 89, no Rio, tendo repetido muitas vezes que se ouvíssemos de fato as crianças, poderíamos ampliar nossa capacidade de criar. Penso que aludia à espontaneidade da fala infantil, atributo que vamos perdendo à medida que caminhamos para a vida adulta. 
 
Não sei se o professor Mundo Javier Naranjo , lá no interior da Colômbia, na zona rural de Antioquía, teve acesso aos livros do Pedro Bloch. O certo é que partiu da mesma premissa e acurou mais que ouvidos, fez atento o coração para o que diziam seus alunos. As frases que lhe pareciam originais, anotava num caderno. Depois de algum tempo, reuniu material para um livro, na verdade um dicionário. Chama-se Casa das estrelas, o universo contado pelas crianças.
 
Fiquei enlevada com a história deste educador de personalidade discreta e imenso poder de acolhimento, capaz de captar a essência do léxico infantil em sua pureza, e a potência das falas em sua condição de comunicar. Num ambiente pobre, carente de ferramentas pedagógicas, sob o impacto da presença de narcotraficantes, permitiu-se compreender leituras da realidade e se emocionar com significantes que traduziam mundos singulares e genuínos. Assim, descobriu que para Duván Arango, 8 anos, “Céu é de onde sai o dia”; o Tempo, segundo Jorge Armando, da mesma idade, “é coisa que passa para lembrar”; pela ótica de Carlos Gómez, 12 , “Universo é a casa das estrelas”. E se “a parte ruim da paz se chama violência”, na definição de Sara Martinez,7, “a paz é quando a pessoa se perdoa”, traduziu o menino Juan Hurtado, 8 . São apenas cinco exemplos, pinçados entre mais de 130 verbetes e 500 definições. 
 
O educador de nome tão simbólico, entrevistado no interior do país, onde trabalha atualmente numa biblioteca rural, disse para o repórter da Feira Nacional do Livro de Bogotá algo muito expressivo sobre as crianças: “elas têm outra maneira de habitar a realidade e de nos revelar muitas coisas de que nos esquecemos”. 
 
Aposto que o professor Mundo deve ser um poeta que como Yeats, Fernando Pessoa, Jorge Luís Borges, Manoel de Barros, Adélia Prado e tantos outros ilustres conseguiu retornar em momentos epifânicos a essa pátria perdida que um dia todos habitamos.
 
Escutar as crianças é fácil. Ouvi-las pede algo mais. Tal como às estrelas com quem Olavo Bilac conversava nas noites insones, há que se amá-las, para entendê-las.
 
 
Sonia Machiavelli,  professora, jornalista, escritora
 

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