Carolina Maria de Jesus, a escritora que definiu a favela

Por: Soraia Veloso

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Autores de novela, filmes e peças de teatro costumam recorrer ao chamado ‘realismo fantástico’ para exaltar determinados temas e/ou personagens visando prender o leitor, o telespectador o maior tempo possível. Aparentemente esta também seria a missão de Quarto de despejo diário de uma favelada, da escritora mineira Carolina Maria de Jesus. Mas só aparentemente, pois esta obra vai além porque é de um ‘realismo real’ como a própria autora ressalta no registro de 9 de agosto de 1958: “Deixei o leito furiosa. Com vontade de quebrar e destruir tudo. Porque eu tinha só feijão e sal. E amanhã é domingo. [...] Fui na sapataria retirar os papeis. Um sapateiro perguntou-me se o meu livro é comunista. Respondi que é realista. Ele disse-me que não é aconselhável escrever a realidade [...]”. São várias as sensações que podem ser despertas ao ler o livro, o que dependerá muito do leitor, da leitora, do momento vivido e presenciado, porque não se trata de um livro publicado recentemente, mas em 1960. Quarto de despejo surpreende pelo realismo com que foi escrito por Carolina ela moradora da favela, relatando diariamente a dura vida que levava. Foi escrito porque lá morava e, portanto sabia muito bem do que estava falando. Ela não escreve sobre qualquer coisa, registra em cadernos achados no lixo as dificuldades de viver em um local sujo, sem água nem luz, um lugar esquecido por todos, traduzido por ela como ‘quarto de despejo’. A cada página, o leitor vai se envolvendo no dia a dia da favela; percebe que a luta diária de Carolina era alimentar os três filhos e para isso catava papelão e tudo o que pudesse vender pelas ruas de São Paulo. Vai saber que ela escolheu viver sozinha para evitar a violência doméstica ela registra as brigas entre mulheres e homens e como as mulheres apanham na favela. Vai entender como ela percebia o preconceito contra os negros, principalmente as negras. Vai se emocionar quando ela cede diante da fome e aceita comer a comida do lixo ou quando no contraponto se delicia com um prato de comida de verdade. Comprar um par de calçados para os filhos ou ir ao dentista eram luxos permitidos de vez em quando. Médicos nunca. 
 
Em Quarto de despejo Carolina apresenta a São Paulo da década de 1950; registra o aumento do custo de vida, momento no qual JK ‘construía’ Brasília. Enquanto Brasília era erguida, relatava as dificuldades de conseguir comprar arroz e feijão que na sua concepção eram comidas de pobres. Mas chega um ponto que ela só consegue macarrão e fubá, ossos ganhados do frigorífico, tomates catados na porta de uma fábrica de extrato (quando o responsável deixava): ao misturá-los, ela alimentava os filhos com sopa. Quando está com fome ou fica nervosa por causa das brigas na favela, ela também briga com os políticos, nomeando-os e brigando com os mesmo. O leitor ficará íntimo dos moradores da favela: Carolina, seus filhos, a Leila, a Silvia e o marido, a Florenciana, os nordestinos, o senhor Manoel que compra o material que ela cata, às vezes pagando mais do que realmente vale; o Benedito da dona Geralda; os políticos que só apareciam na favela em época de eleição e tantos outros personagens reais...
 
Os registros em forma de diários foram publicados graças ao trabalho do jornalista Audálio Dantas. Ele e Carolina se encontraram em um desses acasos do destino. Ao ler o material de Carolina ele se impressiona, faz uma seleção e consegue publicar Quarto de despejo em 1960. Graças a este livro, Carolina consegue realizar seu maior sonho comprar uma casa de alvenaria. 
 
 
A AUTORA
 
Carolina Maria de Jesus (14 de março de 1914 - 13 de fevereiro de 1977) é mineira de Sacramento, alçada à ‘fama’ na década de 1960. Se viva estivesse, teria completado 100 anos em março de 2014. Negra e de família pobre, estudou apenas dois anos no seu município. Viveu em Franca na década de 1930 e teria trabalhado em uma fazenda, na Santa Casa como ajudante, e em residências como doméstica. Chegou a São Paulo em 1937 e na década de 1950 vivia na favela do Canindé, nas proximidades do que é hoje o Estádio da Portuguesa, juntamente com seus três filhos. Registrou o seu dia a dia em cadernos que achava pelas ruas, catando papelão para sobreviver. Carolina entregou seus diários a Audálio Dantas (1929), jornalista, responsável por tirá-la do anonimato, inicialmente publicando trechos e passagens de seus diários em um dos jornais da época e também em uma revista; posteriormente, selecionou trechos dos diários para transformá-lo em livro Quarto de despejo: diário de uma favelada. A primeira edição vendeu 10 mil exemplares em 1960, chegando a 80 mil cópias, um verdadeiro best seller para a época. Foi traduzido para mais de 10 idiomas: alemão, catalão espanhol, francês, inglês, iraniano, italiano, romeno, sueco, tcheco, eslovaco, turco. Nos Estados Unidos, traduzido como Child of the Dark, seria utilizado até nos dias atuais em algumas escolas. 
 
Uma nova edição de Quarto de Despejo foi lançada no Brasil em 2007, pela Editora Ática. Seu livro e sua vida se confundem e foram transpostos para o cinema, o teatro e a televisão. Por ocasião do seu centenário, em 2014, Carolina foi lembrada em diversos eventos em todo país, com lançamento de obras inéditas. Carolina escreveu também Casa de Alvenaria, Pedaços de fome, Provérbios e Diário de Bitita, este último sobre sua infância e lançado somente na década de 1980 primeiro na França e depois no Brasil. Sobre Carolina foram escritos Cinderela Negra, de José Carlos Meihy e Robert Levine; Muito bem, de Eliana Moura de Castro e Marília Novais de Mata Machado; Uma escritora improvável, de Joel Rufino dos Santos, A vida escrita de Carolina Maria de Jesus, de Elzira Divina Perpétua.
 
 
FILME
 
Título:  Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada
Autor: Carolina Maria de Jesus
Editora: Ática & Francisco Alves (Original)
Páginas: 173
 
 
Soraia Veloso Cintra,  assistente social

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