Úmida memória

Por: Ronaldo Silva

A chuva caindo preguiçosa
leva-me numa viagem do tempo.
De repente estou ouvindo os pingos
acariciarem as telhas comuns
da velha tapera.
 
Cheiro de terra molhada
atiça minhas narinas
e reacende impulsos bucólicos.
 
É como se eu captasse novamente
o ruído oriundo da malemolência
dos bambus gigantes roçando suas folhas.
 
Volta e meia, uma galinha incomodada
agita-se no poleiro, sacudindo as penas molhadas.
 
Ao amanhecer, a caminhada de três quilômetros
até a escolinha da Fazenda Aleluia
tinha novas aventuras para eu menino.
Poças d’água que eu imaginava oceanos,
conferiam ares de heroísmo ao aluno franzino.
 
As borboletas ficavam mais coloridas
depois de uma noite de chuva.
O capim à beira da estrada, curvado ao peso
da soma das gotículas de vida,
parecia elevar uma prece de louvor aos céus.
 
Ramagens, flores e pequeninos insetos
aplaudiam a natureza que derramara das nuvens
milhões de pingos de vida 
translúcidos como o amor de Deus.
 
Só uma coisa me incomodava:
levar o guarda-chuva para a sala de aula.
Nunca entendi porque, mas o fato é que
sempre detestei carregar com guarda-chuvas.
E quantos perdi pelas estradas!
 
Hoje esse adulto urbano em que me transformei
acomodado na cidade asfáltica e concretada
sente uma imensa e dolorida saudade
de simplesmente deixar uma pegada no barro
da estradinha de terra pra ver se, na volta, estará lá ainda.
 
 
Ronaldo Silva, vendedor,  universitário

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras