O morador do asteroide B-612

Por: Sônia Machiavelli

Ele era loiro e delicado e se encontrou certo dia com um Ícaro de asas quebradas em pleno deserto. Informou com simplicidade, mas também desenvoltura, que vinha de um pequeno asteroide, o B-612, que se caracterizava por ter dois vulcões, dois ativos e um extinto, mas era tão pequeno que nele se poderia enxergar o pôr-do-sol a qualquer momento: bastava virar-se. 
 
Rodando pelas galáxias, por causa das exigências de certa Rosa, e de carona com pássaros selvagens, em sua viagem sem roteiro prévio havia se surpreendido em planetas exóticos onde moravam seres esquisitos. O Rei que queria ter o visitante como súdito e não se cansava de repetir ordens para ninguém. O Vaidoso que almejava aplausos a torto e a direito. O Bêbado envergonhado que girava em círculo para se livrar do vício. O Homem de Negócios que só sabia contar estrelas como objetos de sua pertença. O Geógrafo que ignorava por completo as montanhas e os vales de seu próprio espaço. O Acendedor de Lampiões que não tinha sossego, posto que deveria apagar e acender a lâmpada da rua a todo momento.
 
À exceção deste último, que olhava para algo além de seu próprio umbigo, todos pareceram ao pequeno estrangeiro seres ridículos. Talvez por ser ainda muito jovem, o viajante não conhecia a o adjetivo narcisista, caso contrário é provável que o tivesse usado para qualificar as criaturas.
 
E foi no planeta do Voador que ele descobriu uma Raposa. Foi ela quem lhe ensinou muitas coisas interessantes por desconhecidas e lhe contou um segredo contido em poucas palavras assim organizadas: “Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.” 
 
Esta frase deve ser das mais repetidas no mundo- especialmente pelos apaixonados, pelas debutantes e por candidatas a miss-qualquer-coisa do século passado. O livro onde ela se insere o leitor já adivinhou qual seja desde a primeira linha. Trata-se de O Pequeano Príncipe, terceiro mais vendido no mundo, superado apenas pela Bíblia e pelo Alcorão. Grande feito artístico do autor, Saint-Exupéry, que com uma originalíssima narrativa ilustrada, na verdade algo que se poderia chamar de iconotexto, estimulou milhões de leitores com seus personagens só aparentemente dedicados às criancinhas. Mais que a estas, a história e seus desenhos, principalmente as frases lapidadas pela sabedoria e sensibilidade, convidam o adulto a reconquistar a invulnerabilidade da infância, aquele estado de vida espontânea, quando as capas da cultura ainda não fizeram seu estrago. É imensa a força dessa ficção, concebida por um piloto que morreu aos 44 anos, quando seu avião desapareceu nas águas do Mediterrâneo, numa missão dos Aliados, no final da Segunda Guerra.
 
Em várias etapas da vida a leitura de O Pequeno Príncipe pode despertar do sono a criança interior que todos trazemos, às vezes adormecida suavemente, outras anestesiada em zonas profundas das quais se nega a emergir. Muito já se disse sobre a conversa entre o homem solitário e o menino curioso que transita pelo universo. Mas resolvi trazer à baila o livro importante porque na França, terra de seu autor, e nos Estados Unidos, onde o livro foi publicado pela primeira vez, os fãs começam a comemorar os 70 anos da obra. Muitas edições deste clássico estarão a partir de agora em andamento ao redor do planeta e em nosso país a Geração Editorial saiu na frente. Em versões luxo, pocket e e-book, a nova edição em português tem tradução de Frei Betto, o que garante excelência. E vem enriquecida com apêndice sobre a trágica vida do autor, segundo o filósofo Martin Heidegger, “ o criador da maior obra existencialista do século XX.” 
 
Se a contribuição mais importante do Existencialismo, segundo Sartre, foi a ênfase no livre arbítrio do homem e a responsabilidade do mesmo sobre seu destino, então o habitante do asteroide B-612 é o mais encantador (e nostálgico ) representante do ser que em sua jornada de aquisição gradual de conhecimento descobre que a existência precede a essência. Não há frase mais existencialista que aquela dita pela Raposa: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que conquistas.”
 
 
Sonia Machiavelli,  professora, jornalista, escritora
 

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