A baba do boi

Por: Luiz Cruz de Oliveira

No ontem tão ligeiro, um menino percorre quilômetros, chega à cidade, ao grupo escolar.
 
Na lousa, a letra bonita ensina o á-bê-cê. O alfabeto, as vogais, tudo fica impresso na mente e no coração pelo coro de trinta e uma vozes. Depois, um canto doce revela o acasalamento das letras:
 
- B mais A é igual a BÁ.
 
O coro repete o refrão, a pequena deusa acrescenta:
 
-BÁ mais BÁ é igual a BABA.
 
O medo de castigo físico ou moral não é grande bastante. A concentração escapa pela janela, voa. O menino cavalga o alazão do pai, para debaixo da paineira, em cuja sombra o boi Estrelo rumina bovinamente. Senta-se na raiz da árvore, conversa com os bichos.
 
No hoje tão lerdamente lerdo, um velho faz menção de levantar-se da poltrona. Deseja aproximar-se da janela, voar em busca do antigo sítio, das árvores, da baba do boi Estrelo, da perdida inocência.
 
Não consegue pôr-se de pé.
 
Não consegue.
 
 
Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras
 
 

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