Penumbras

Por: Maria Luiza Salomão

Há algumas situações que me deixam à vontade comigo mesma, em liberdade vagante. Valorizo esse estado de espírito, depois que aprendi a discriminar melhor meus ruídos internos, para ouvir - maiormente - os ruídos externos, as suas melodias.  
 
Tenho, atualmente, ânsia por silêncio e penumbras, quase um luxo hoje em dia. Gostava, desde pequena, de quartos escuros: não enxergar nada, no repente, até que contornos dos volumes se delineassem. Gostava (ainda gosto) de observar meu cérebro trabalhar, a refazer o desenho dos objetos na escuridão, a intuir a aproximação de algum sólido despercebido, sem trombar nele.  Queria (ainda quero) “ver” de corpo e espírito, não só com os olhos.
 
Sons bruscos me assustam, hoje e sempre. Não porque envelheci. Ouvido ultra-sensível, eu discrimino sons, mesmo involuntariamente, e conversas próximas a mim. Gosto de compreender fontes de sons sussurrantes.  
 
Ao usar ripas de madeira no assoalho, tinha conhecimento de que quando a casa envelhecesse, ouviria estalos, estalidos, um ranger súbito a cortar o silêncio. Sons que me levam a devanear.  Minha sonora casa: gentes invisíveis me visitam. Se não é verdade, é bem inventada a história. Nas madrugadas em que as madeiras conversam com as paredes dos meus ouvidos, sinto a casa movimentada e viva.  
 
A minha geladeira nova geme baixinho: ela funga. Pensava que o som viesse do meu poodle, que conversa suas carências comigo: ele me olha e fala de boca fechada, modulando reclamações e pedidos que entendo: quer cafunés o tempo todo.  
 
A geladeira faz grunhidos leves. Nunca gostei de colocar gelo no copo, nem de água gelada, mas com os novos tempos infernais, dei de alimentar seus reservatórios de água e passei a comer gelo. Não engorda e não faz mal e me distrai, não só da fome.  Essa geladeira se tornou muito minha amiga: eu a escuto. Ela não resfolega e para, e continua, quando em quando, como a antiga. Ela entoa...
 
Trovões, especialmente os que ressoam distantes, são tambores de vida: anunciam o frescor das chuvas. Elas vêm desajeitadas, por vezes, arrancando tetos e inundando ruas, o que fazer? Ruim com eles, pior sem eles.    
 
Não controlo ruídos externos (nem internos), mas o ruído da minha voz deve encontrar ouvidos na geladeira, (nos trovões não sei), nas plantas, animais, pedras, piso e paredes.  Conversamos, pois.
 
Quanto mais vivida mais me sinto aberta para dentro e para fora. Ando penumbrosa, em corpo sensível e em corpo fantasmático.  
 
O indefinível anda beiradeando  melhor meu coração, mais antenado e avisado do que nunca ao que pensava não existir, pero que existe. 
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)
 
 
 

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