O canivete

Por: Everton de Paula

Quando eu era menino, havia três coisas que eu mais desejava neste mundo: um piano, um estojo de pintura e um canivete. Uma tia paterna acabou me dando um velho piano Pleyel, de teclas de marfim amarelecidas, desafinado, com a cobrança de que eu haveria de estudar muito e me tornar um pianista famoso. Já não era um presente, mas sim um compromisso pesado para um garoto de 8 anos. Uma tia materna presenteou-me, no aniversário, com uma caixa de pastilhas de aquarela. Tudo bem. Mas nunca tive um canivete.
 
Vocês não sabem a falta que fazia, para nós, um bom e completo canivete. Era, ao mesmo tempo, arma de uma improvável autodefesa, saca-rolha, brinquedo para jogar “faquinha” nas linhas entrecruzadas no chão de terra, era status dos grandes na escola. Portar um canivete, naquela época, era coisa de meter respeito, sem qualquer significado contemporâneo de delinquência. 
 
Nunca tive um canivete.
 
O tempo passou, passou e passou muito. Cresci, virei gente, casei-me. Mas continuei sem canivete. Não valia canivete comprado, tinha que ser dado, como um elefantinho de cristal.
 
De modo que, há pouco tempo, quando soube que o filho de um vizinho amigo meu ia fazer 13 anos, procurei, encontrei e comprei-lhe um canivete.  Não lhe perguntei se tinha um ou se queria. Achei simplesmente que era o presente adequado.
 
- Que é isso, tio? – perguntou-me ele quando orgulhosamente eu entregava o presente. – Está me achando com cara de menino de rua?
 
Engoli em seco e respondi:
 
- Claro que não, Felipe!
 
- Eu estava brincando, tio! (Esse “tio” me irritava bastante). – Mesmo porque este canivete não tem lâmina, como o usado pelas gangues. Mas o que vou fazer com isso? – continuava argumentando o pestinha.
 
- Ora, pode cortar coisas, - respondi já meio sem graça. – Você nunca desejou fazer coisas com um canivete? Varas de pescar, apitos, espadas?
 
Essas sugestões fizeram minha mulher balançar a cabeça, olhar para cima e tomar outro rumo. Achei que já estava perdido por ali, mesmo porque começava a formar uma rodinha de moleques e seus pais em torno de mim e do Felipe.
 
E o Felipe continuava implacável:
 
- Mas isso a gente compra baratinho em qualquer loja do shopping. Que é isto aqui?
 
- Um saca-rolha, - expliquei.
 
- Tio, você deve saber que hoje só existe rolha em garrafa de vinho. E eu não bebo vinho ainda.
 
- Sinto muito, Felipe, - desculpei-me. – Quando eu era da sua idade uma das coisas que eu mais quis ter foi canivete. Com um canivete como esse eu poderia fazer mil e uma coisas: ganhar o campeonato de arremesso de faquinha na nossa rua, descascar uma laranja e retalhá-la em gomos, marcar as minhas iniciais no tronco de uma árvore para lá permanecerem eternamente, preparar varetas de bambu para armar uma pipa, mostrá-lo com orgulho para meus colegas... Achei que qualquer garoto gostaria de possuir um canivete.
 
- Olha, tio, valeu a intenção. Mas o que eu queria mesmo era um celular, um Galaxy S6 da Samsung...
 
Foi quando a mãe de Felipe interveio e disse olhando para mim:
 
- Eu entendo. Você está satisfazendo um desejo infantil, indiretamente, por intermédio do nosso filho. Felipe, guarde sempre esse canivete com carinho, mas com muito cuidado. Não vá se machucar!
 
 
Não me dei conta de que o presente fosse extemporâneo!
 
Levantei os ombros, dei por encerrada a minha missão e senti uma vontade imensa de ter 10 anos novamente. Não para ter o canivete. Se tivesse 10 anos novamente dava naquele garoto uma surra como nunca ele havia levado.
 
Depois que escrevi esta página, mostrei-a a alguns amigos e confrades da Academia Francana de Letras. O seu presidente, o Joca, apreciou o texto e se manteve em silêncio. Dias depois, numa das reuniões, ele me presenteou com um belíssimo canivete suíço, vermelho brilhante, de várias lâminas e recursos. Que bem o Joca me fez!
 
Ainda toco piano, num imponente Meister. Pinto algumas telinhas a óleo, coisinhas de paisagens e casarios que vão se acumulando num cômodo do quintal da casa. Mas o canivete, este se encontra guardado numa caixinha de veludo azul, teimando em não deixar morrer um sonho de criança.
 
 
Everton de Paula, acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 43 anos
 

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