De primeiro

Por: Luiz Cruz de Oliveira

De primeiro, as cidades eram pouco povoadas. Assim – e isso parece incrível, há setenta anos, a população de Franca se resumia a pouco mais de vinte mil habitantes. Restinga, Covas, Guapuã (hoje Cristais Paulista), eram meras estações da  Companhia Mogiana, circundadas por algumas casas e uma capela.
 
De primeiro, a maioria das pessoas  morava no campo, ocupando-se do cultivo das lavouras de café, do plantio de arroz, milho e feijão, apascentando o gado comum ou da raça Gir. Então, a sociedade campesina se caracterizava pela vida simples e rude, sem conforto; rica, porém, de exemplos de solidariedade.
 
As atitudes de companheirismo pululavam pelos caminhos da sobrevivência.
 
Por motivo de doença, por razões outras, de repente algum colono ou sitiante não conseguia carpir a lavoura, não dava conta de roçar o pasto sob sua responsabilidade, de terminar a colheita no tempo devido. Bastava um vizinho ficar sabendo disso, e a fagulha da solidariedade desrespeitava cercas de arame farpado, arreganhava porteiras , abria tronqueiras, enfrentava pinguelas, descia até as furnas, subia morros, incendiava a vizinhança.
 
E, aí, ocorria a “traição”.
 
Numa manhã de sábado qualquer, a casa do vizinho era despertada por grupos que acorriam de todas as direções. Os jovens e seus pais portavam enxadas e foices. As mulheres vinham apinhadas de utensílios domésticos e de alimentos (frango, toucinho, carne seca, embornal com arroz, com farinha, com feijão). Enquanto eles se dirigiam para os pastos, para as lavouras, elas se dividiam: parte ia para junto da bica, para a margem do córrego, para junto dos quaradores, enquanto um grupo delas se instalava na cozinha ou ao redor de trempe improvisada no quintal.
 
Lá pelas nove horas o almoço chegava aos pastos, às lavouras. Chegava em tachos, em panelas, em bacias de alumínio, em caldeirões, em rabinhas, trazido por mulheres e meninos. Depois do meio dia, ocorria nova refeição: café, chá, leite, biscoito, bolo, broa de fubá, arroz doce...
 
A labuta continuava até perto de quatro horas da tarde. Então, recolhiam-se as ferramentas, os trabalhadores iam-se lavar. Aqueles que moravam perto iam até sua casa. A maioria, porém, banhava-se em bebedouros para o gado, em bicas, nos córregos próximos. E todos se dirigiam novamente para a casa do “atraiçoado”. 
 
Erguiam uma tenda, geralmente no terreiro de café. A noite chegava e era a vez das ferramentas sonoras. A sanfona, o violão e o pandeiro carpiam mágoas ou explodiam foguetes de alegria na noite e nos corações.
 
Era hora de o Cupido lavrar outras terras. 
 
Na semana seguinte, o comentário lá na roça era um só.
 
- Traição bichareda, não foi, menino Tião?
 
- Se foi. Eu até me enrabichei com a filha do Zé Leme. Acho que vai virar namoro.
 
A industrialização provocou o êxodo rural, as cidades incharam. A necessidade e a ausência de ferramentas para lavrar a nova vida e carpir as novas dores acenderam o egoísmo. A pressa não tem mais tempo de parar, de escutar a dificuldade do vizinho. E o costume da traição ficou adormecido no rabo do fogão à lenha.
 
Apesar disso, como sempre, debaixo de muita cinza restaram brasas de solidariedade. Resquícios da “traição” embarcaram na jardineira, no caminhão de leite, vieram para a cidade.
 
 Aqui em Franca, por exemplo, moradores lá do Jardim Tropical, lá do Jardim Elimar, lá do Jardim Paulistano sopraram tição, recuperaram o calor da solidariedade: construíram, em mutirão, escolas e Unidade Básica de Saúde em suas coletividades.
 
De primeiro, era assim.
 
 
Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, autor de 23 livros
 
 

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