A história de Leidinha

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

Tião, ficando sem os pais, vítimas de salteadores, saiu pelo mundo, tentando sobreviver usando de artimanhas e cometendo pequenos delitos, numa vida nômade, sem destino e sem paz. Eventualmente, oferecia-se para serviços aos abastados donos de terras. Encontrando-se na fazenda do Coronel Ronam, sorrateiramente, aproximou-se da casa grande. Vendo Leidinha dando trato às galinhas, com seus cabelos loiros brilhando ao sol, num ímpeto, puxou-a para si e arrastou-a dali. Ninguém viu e, com ela na garupa de seu cavalo, saiu devagar até tomar uma boa distância do local. Daí, partiu para trilhas que ele conhecia bem. O filho do coronel, jovem, destemido e acostumado a grandes cavalgadas, reuniu alguns peões da fazenda e saiu à procura da irmã. Não a encontrou. Profundo desalento tomou conta da fazenda. A consternação era geral. Sabendo do ocorrido, juntaram-se parentes, empregados e amigos, todos decididos a procurarem a jovem. Fizeram várias incursões em muitas direções e nada encontraram. Algum tempo depois de desistirem das buscas, seus pais faleceram de tanto desgosto.
 
Moradores da fazenda e região colocaram cruz e flores no local onde a moça fora raptada. Velas e incensos eram queimados pela sua alma. Os de maior religiosidade já a consideravam santa e juravam terem alcançado graças solicitadas a ela.
 
Enquanto isso Leidinha chorava de saudades da família, abaixava os olhos e obedecia.  O seu desamparo a deixara dependente dele, sendo prisioneira e protegida. Estava, pois, subjugada e manifestando um dúbio sentimento de medo e afeto. Um misto simultâneo de terror, ódio e, ao mesmo tempo, simpatia e gratidão. Este complexo comportamento dela era a forma inconsciente que encontrou para sobreviver. O passar do tempo tornara sua mente indefinível. Às vezes pensava que só ele poderia salvá-la. Incapaz de enxergar com clareza sua real situação, enamorou-se dele, sentindo-se perdidamente apaixonada. Não quis voltar. Foram para bem longe, onde tiveram filhos e vida profícua.
 
Passaram-se vinte anos quando resolveram visitar os lugares de origem de Leidinha. Na fazenda, seu irmão ficou feliz em revê-la viva e forte com seus filhos aparentando felicidade. Só lhe restou perdoar o raptor e apertar-lhe suas mãos. Filas enormes de moradores de toda região se fizeram para ver aquela que, depois de considerada morta e santa, voltara a sua terra.
 
 
Maria Rita Liporoni Toledo, professora
 

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