Relatos Selvagens, o filme

Por: Maria Luiza Salomão

O filme argentino, dirigido por Damián Szifron, e produzido pelos irmãos Almodóvar, é intrigante: tenho admirado a qualidade crescente do cinema argentino. O tema de Relatos Selvagens é a violência; o subtema retrata a Vingança, reação atávica humana, destrutiva e autodestrutiva. Vingança é justificável? 
 
(Lembro-me de Roberto Jefferson, que se dirige, em tenebrosa voz e olhar tétrico, a José Dirceu: “Vossa Excelência provoca em mim os instintos mais primitivos”) (vingança é esse diálogo de instintos primitivos de lá e de cá). 
 
No filme, seis episódios: um pai tenta inocentar o filho que atropelou uma mulher grávida e fugiu, subornando advogado e delegado; o abuso de poder, corrupção? - na cobrança de multas de trânsito e a fúria do engenheiro (Ricardo Darín) que maneja explosivo; uma discussão violentíssima de dois motoristas, na estrada, depois de uma troca de comentários fúteis sobre os seus respectivos carros; uma briga, com direito a sangue e lágrimas, de um casal, no dia da festa do casamento, por ciúmes de uma convidada (colega de trabalho dele) que mantém um caso com o marido; a vingança fatal de uma cozinheira de um restaurante, que toma as dores da jovem garçonete (que reconhece o freguês, brutalmente cruel com sua família, no passado); um comandante que reúne todos os seus desafetos em um avião pilotado por ele, arremetendo-o contra o quintal da casa dos pais. 
 
Extremadas reações para extremadas consequências, com as devidas questões éticas: como conviver com sentimentos primitivos não domados, que eclodem como minas ao se agatanhar a precária superfície civilizada? 
 
Ri-se “de nervoso”, em Relatos Selvagens. Humor (?!?) que vem da trágica revelação de fantasias recônditas malévolas, essas que desacreditamos ao vê-las concretizadas. 
 
Como educar o filho eticamente, se não sou ético? Ciúme justifica ódio e ataques? Como abortar tsunami de inveja? O que justifica assassinato premeditado e cruel? Um ato inumano justifica outro? O que sustenta, e o que abranda a força do desejo de vingança?
 
Assustador ver a barbárie em suas barbas mal feitas, quando supomos estar, no século XXI, em outra dimensão de desenvolvimento psíquico e espiritual. 
 
Não senti vontade de rir nesse filme. Suspeitei que muitos espectadores sabem da lama que nivela acusadores e acusados, omissos e supostos ingênuos. Em Relatos Selvagens ouço risos tintos de vergonha, de susto: somos assim, tão brutais, tão frágeis frente ao Mal, semi-humanos?
 
Não é um filme de guerra. Também não trata de questões de sobrevivência - matar para não morrer. O filme retrata os insanos ímpetos de vingança, de seres imersos em irracionalidade bruta que caminham para o holocausto, triunfantemente apequenados como humanos. 
 
Sentada à frente da TV, ouço que o piloto jordaniano foi queimado vivo por homens da ISIS. Relatos Selvagens. Leio em jornais: assassinato da mulher e suicídio posterior do ex-amante; filho mata o pai a facadas; adolescente espanca professor; bebê jogado da janela do prédio; assassinato de cartunistas ... 
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)
 

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