Extemporâneas referências

Por: Eny Miranda

O tempo anda muito estranho: é seca em época de chuva; é calor excessivo em cidades de clima comumente ameno; são nevascas “como nunca se viu” assustando gente familiarizada com invernos rigorosos; vendavais aterradores e aguaceiros inclementes pipocando em vários pontos do globo... Parece que o Planeta Azul está amarelando, ou avermelhando... talvez embranquecendo... Está é ficando confuso e gerando confusão no clima e na vida terrena, que vão perdendo suas referências.
 
Outro dia, percorrendo algumas ruas da cidade, observei quaresmeiras róseas florindo muito antes que o carnaval se anunciasse. Mas não devo comparar as flores com as tormentas ou com os dias abrasados: tenho de admitir que pétalas são sempre um regalo. E de pétalas extemporâneas - mas bem vindas - há outros exemplares, nestes tempos de excentricidades. Sempre é possível encontrá-los. 
 
Numa tarde tórrida deste janeiro, a caminho do aeroporto Santos Dumont, no Rio, pude contemplar pés de abricó de macaco exibindo seus maravilhosos arranjos florais. Para quem não a conhece, a Coroupita guianensis é uma árvore que normalmente floresce em outubro. O nome vulgar não é nada poético, mas, vendo-a assim, metaforizando primavera em pleno verão carioca, penso num poema cósmico, numa obra extraterrestre; especificamente, penso numa jabuticabeira de outro mundo em floração psicodélica. As flores envolvem o tronco, desde o chão, sobem e tomam também os galhos, mas, longe de serem brancas e delicadas, mostram-se coradas, robustas, graúdas, exuberantes. As cores, vivas, vão do amarelo alaranjado ao escarlate e ao púrpura, passando por tons rosados e avermelhados. As pétalas são grandes e carnudas, e o miolo é volumoso, amarelado, circular, com um detalhe diferente em uma parte da circunferência que o delimita: uma espécie de franja ou de grandes cílios, presos na extremidade de dois lóbulos, como os das folhas de certas plantas carnívoras (lembraram-me dioneias). Essas flores, muitas vezes, disputam espaço com os frutos - grandes e pesadas esferas -, comestíveis, mas, ao contrário das jabuticabas, nada apreciados. Ambos, flores e frutos, brotam de um cipó grosso, de aspecto rijo, asselvajado até, e é com ele que vão abraçando, quase sufocando de rudeza e de beleza, o tronco e parte da copa. Era como se a cidade se preparasse para uma festa, com essa árvore extravagante, essa Coroupita guianensis, de nome vulgar esdrúxulo: abricó de macaco, a se acumpliciar com a desordem climática, trazendo à cena, fora de ocasião, sua arte. 
 
Surreal? Mas surreal anda o mundo. Pois que neste tempo muito estranho, de seca em época de chuva e de calor excessivo em cidades de clima comumente ameno, num janeiro tórrido do Planeta Água, surgem ígneas jabuticabeiras, com grandes, túrgidas flores alaranjadas, fúcsia, encarnadas, escrevendo primavera em linguagem de outono, apontando grande beleza na desnorteada vida terrena, que, assim, vai ganhando novas e extemporâneas referências.
 
“Ah! que la Vie est quotidienne...” cismava desencantado o poeta Jules Laforgue. Mais non! La vie est extraordinaire! 
 
 
Eny Miranda, médica, poeta e cronista
 
 

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