Esperanças vãs

Por: Everton de Paula

Estamos já no décimo quinto ano do milênio, que nos trouxe tantas esperanças, tanta promessa. A noção de um ano, um século, uma época terminarem à última badalada de uma determinada meia-noite é apenas concepção metodológica, jamais correspondendo à realidade histórica. Teria sido muito interessante se logo depois da passagem de Constantinopla para o poder dos turcos em 1453, um daqueles arautos, paramentados a rigor, tivesse subido à escada disponível e gritado com emoção, a plenos pulmões:
 
- Atenção! Fiquem todos informados de que terminou oficialmente a Idade Média, passando a vigorar desde já a Idade Moderna!
 
Dizem os estudiosos que o século XIX, tão importante para o progresso da humanidade, não terminou a 31 de dezembro de 1900, mas resistiu bravamente até o início da primeira guerra mundial em 1914, quando a belle époque sucumbiu à violência das nações ditas civilizadas. Outro historiador, em face das desigualdades sociais, garante que ainda não saímos da Idade Média...
 
Este introito de dois parágrafos vem a propósito de tantas situações antigas que ainda ocorrem em meio a todas as aparências de modernidade. Sendo mais explícito, imaginei que as coisas, a partir de 2000, seriam todas limpas, mais silenciosas, mais racionais, mais éticas, como se o mundo buscasse um modo de vida a proporcionar bem-estar coletivo. Ao invés, o mundo se transformou nisso aí, com toda a sorte de poluição, de imperfeição, de retrocesso moral, de agravamento da pobreza, da doença, da falta de paz.
 
Quando leio notícias como os degolamentos ao vivo via Internet promovidos pelo Estado Islâmico, duvido cada vez mais do progresso moral. O milênio começou mal. Nem havíamos completado o primeiro quinquênio e Heschu Yones, menina de 16 anos, nascida em Londres, no seio de família curda muçulmana, que por ter se apaixonado por um jovem libanês (quem sabe cristão, na época), contra a vontade da família, foi assassinada com onze facadas pelo pai, que ainda lhe cortou a garganta.
 
Quase à mesma época, numa aldeia perdida do Paquistão, Rakhsana Naz, de dezenove anos, grávida do namorado de infância, foi morta pelo irmão – estrangulada por um fio de náilon, enquanto a mãe lhe segurava as pernas para que a jovem não se debatesse. Em defesa da honra, também.  Mãe chorava desesperada enquanto auxiliava o filho na macabra tarefa. Certo que ela gostaria de não fazer aquilo, mas um poder maior que seu amor de mãe a obrigava a tanto.
 
Ora, dirão os meus seis leitores, o escriba está hoje em altos delírios, porque coisas assim não acontecem no Brasil. Será? Nos presídios não ocorrem estrangulamentos, estupros, brutais assassinatos? Na política não se desviam verbas monumentais, superiores a bilhões e bilhões de reais, para dar sustenção ao governo do partido vermelho? Isto também constitui um ato de violência... Violência contra nossos princípios, nossas crenças, nossas esperanças de um Brasil mais limpo, mais silencioso, mais racional, mais ético.
 
Guardadas as distâncias e proporções, toda vez que a ordem legal, assentada na moral pública, é agredida por atos de corrupção em favor de minorias bem-situadas, tem-se a vitória do mesmo modo de pensar de quem mata em favor de uma abstração, como a família, o clã, o partido...
 
Pior ainda: quando esses atos de corrupção no Brasil ofendem o cidadão como ser pensante são praticados pelos detentores legais do poder e em benefício de pessoas ou grupos mancomunados com elas, os grupos sociais em que se dão essas ocorrências vivem grave ameaça de dissolução, porque a corrupção institucionalizada não apenas desequilibra as oportunidades de cada um buscar a sua felicidade, mas também veda à grande maioria das pessoas a mínima possibilidade de inventar seu próprio mundo, ou de reinventar o cotidiano à busca do progresso sob a égide da moral.
 
Nas sociedades corruptas, como se vê hoje, tristemente, no Brasil, minimiza-se o presente, desaparece o passado e destrói-se uma das características marcantes de conceber o futuro: por que existe algo em vez de nada? Até mitos elaboradíssimos da vitória final inevitável do bem, do amor, da paz desaparecem. São tiradas de cada pessoa todas as ideias de progresso que o homem instintivamente inventa, porque nada mais se ajusta às gerais necessidades e às condições do real.
 
Este o grave perigo a que o Brasil vem sendo levado, se não com a efetiva participação das camadas pensantes da população, ao menos com sua tácita concordância por omissão, comodismo.
 
Por que a população não lota as ruas das metrópoles e clama pela ética?
 
Talvez porque o pior dos sentimentos já esteja tomando conta do espírito nacional ante tantas corrupções: o tédio, a náusea, a esperança que se tornou vã, inútil, utópica.
 
 
Everton de Paula, acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 43 anos
 
 

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