Raízes da intolerância

Por: Mirna Ferreira

A intolerância é a base da discriminação do outro, seja nas relações com vizinhos, grupos ou nações. Na coletânea Raízes da intolerância, organizada por João Angelo Fantini, lançamento da EdUFSCar, psicólogos e psicanalistas brasileiros e ingleses abordam o assunto sob diferentes perspectivas.
 
Segundo Fantini, “o conjunto de textos pretende demonstrar como a intolerância e os mecanismos de segregação estão intrinsecamente ligados aos processos de subjetivação constituintes na construção do sujeito. E como estes processos, fundamentais para o que chamamos ‘humano’, podem ser também ameaçadores ao laço social que funda a civilização”. Christian Dunker abre o livro focando o problema da intolerância no Brasil, desde suas raízes indígenas, para nos levar a pensar como hoje ainda encontramos traços do sincretismo cultural, especialmente aspectos que se tornam comuns na sociedade brasileira, como o “jeitinho” e a “cordialidade” brasileiros. Já Stephen Frosh, da Universidade de Londres, analisa como se formam os grandes grupos, especialmente como se processa o mecanismo de isolamento/agrupamento,
 
O estudo de Derek Hook, da Universidade de Londres, discorre sobre os mecanismos subjacentes no racismo, levando em conta não apenas aspectos psíquicos, mas também históricos sobre as relações de poder. Da mesma universidade, Lisa Baraitser e Stephen Frosh resgatam as questões que fundam as raízes do processo de constituição do sujeito e do outro, a partir da separação primeira da mãe: “a capacidade da mãe para ver e amar a criança, mas não dominá-la, não colonizar o espaço mental da criança, pode ser o paradigma fundamental de como ela pode ser capaz de pensar”.  
 
O texto de João Angelo Fantini, professor da UFSCar, encerra a coletânea, com uma análise sobre as políticas de igualdade, especialmente em relação ao sistema de cotas, para além das diferenças culturais e políticas entre o Brasil e o Reino Unido.
 
Embora tratando de diferentes perspectivas sobre o assunto, não é incomum que vários capítulos dialoguem com outros intelectuais afetos ao tema - como Judith Butler, Laura Mulvey, Linne Segal, Homi Bhabha, Renata Saleci, Slavoj Zizek, entre outros -, permitindo pensar, especialmente com a psicanálise e a teoria social, formas de discriminação relevantes no debate sobre a intolerância.
 
 
Mirna Ferreira, jornalista

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