O Zero e o Infinito - (Ou sobre certa ficção gramatical)

Por: Sônia Machiavelli

Exigente, mas não difícil. Assim a leitura de O Zero e o Infinito, escrito em inglês por um húngaro , Arthur Koestler, que teve vida atribulada, como se pode conferir na pequena biografia abaixo. A dureza do livro se deve ao fato de que a cada página somos instigados a nos questionar junto ao narrador sobre as convicções que cegam. Acho que é obra essencial neste nosso tempo onde diversos tipos de autoritarismo voltam a infestar os espaços de liberdade. 
 
O título escolhido pela maioria das editoras estrangeiras não corresponde literalmente ao original, Darkness at noon. Como leitora eu teria preferido este imagético e sugestivo Escuridão ao meio-dia, mas reconheço que O Zero e o Infinito é mais preciso ao traduzir a essência da narrativa, que é a descrição do funcionamento de um regime comunista, onde o indivíduo equivale ao zero enquanto a coletividade tem valor infinito: esses os dois pilares da ideologia comunista.
 
O ser humano é considerado zero porque, segundo os ideólogos do Partido, deve destruir voluntariamente sua personalidade e existir apenas como “parte de uma multidão de um milhão dividida por um milhão”. Neste universo focado pelo autor, que é o das Repúblicas Socialistas Soviéticas da Era Stanilista (1922-1953), o único critério moral é a utilidade da pessoa; e a única ética política, a justificativa dos fins pelos meios. Neste macrocosmo nunca se conjuga a primeira pessoa do singular, eu, apenas a do plural, nós.
 
É por aí que começa a se perder o protagonista Rubashov, que chama a este fenômeno só aparentemente linguístico de “ficção gramatical”. Elemento de proa no quadro político, membro do Comitê Central do PC, onde figurou ao lado do “Número Um” até cair em desgraça, é subitamente preso e levado a uma cela mínima onde se vê confrontado com um sistema extremamente repressivo e cruel, para o qual ele próprio havia colaborado durante anos de carreira no Partido. Acusado de contra revolucionário, e portanto de traidor, enquanto aguarda os três interrogatórios aos quais será submetido, interroga a si mesmo sobre as razões que o levaram à situação em que se encontra, depois de ter dedicado grande parte de sua vida à causa política. 
 
Entretanto, não pense o leitor que Rubashov critique a priori o sistema ao qual ainda se acha vinculado. É por um longo processo de questionamentos entrelaçados e contínuos que ele buscará respostas nem sempre precisas. Em meio a interrogatórios que às vezes lembram debates tensos com seus interlocutores, Ivanov e Gletkin; supliciado por dor de dente que não quase não lhe dá tréguas; esmagado pelo silêncio e pela escuridão de uma cela minúscula; nauseado por latrina que exala fedor o tempo todo; tendo como raro vestígio humano o prisioneiro 402 com quem se comunica laconicamente através de batidas na parede, Rubashov avalia seu presente, revisita o passado, imagina o futuro do partido e os fundamentos de sua ideologia. E hesita entre história e necessidade, meios e fins, razão intuitiva e lógica dialética. O romance não apresenta enredo propriamente dito. E o desfecho é inevitável. Mas antes de ser executado, Rubashov mergulha nas águas cada vez mais profundas da introspecção onde mobiliza lealdades e motivos. 
 
Há momentos em que parece renegar tudo o que foi e fez, incluindo aí mortos que carrega já não mais apenas na memória, também na consciência levemente tocada pela culpa. As pessoas que atraiçoou, entre elas uma mulher a quem se afeiçoara, lhe surgem na lembrança como um resíduo de remorso, e nelas ele reconhece muito mais que a imprescindível “serventia” doutrinada pelo partido. Nelas havia carne e sangue, pele e ossos, coração e inteligência... Há instantes em que se sente disposto a resistir à tortura para se manter fiel a si mesmo e às ideias pelas quais arriscou tudo, opondo o comunismo dos velhos bolcheviques, com os quais se identifica, ao dos jovens revolucionários sem instrução e com muita rudeza. Estes engrossam as fileiras dos que participam dos expurgos sumários que retiravam de cena dezenas de condenados a cada dia. 
 
É assim, num assombro de resistência física e mental, de capacidade de manter uma conexão consigo e tentar dissipar suas dúvidas, que Rubashov é mostrado ao leitor. Ora em movimentos externos marcados por gestos compulsivos como tirar o óculos e esfregá-lo na manga da camisa quando muito pressionado. Ora em considerações emblemáticas, como no final da sentença de morte, quando imagina que o abscesso que latejava de forma insuportável junto à raiz do seu dente, “enfim se dissolvera”. 
 
Com ênfase crítica no caráter ideológico, poderíamos dizer também que com toque de denúncia antecipatória, Arthur Koestler desvela em 1940, quando o romance é publicado, os horrores que Nikita Kruschev só mostraria aos soviéticos duas décadas depois: do ano em que sucedeu a Lenin, em 1922, até sua morte, em 1953, Stalin ordenou a morte de mais de 4 milhões de pessoas que se opuseram ao regime que fora criado para “oferecer jardins floridos a todos”.
 
 
UMA VIDA INTENSA
 
Arthur Koestler nasceu na Hungria, em 1905, estudou em Viena e morou em Berlim, na Palestina, em Paris e em Londres. Entrou para o Partido Comunista Alemão em 1931, viajou pela União Soviética e atuou como repórter na Guerra Civil Espanhola, na qual foi capturado, preso e condenado à morte por Franco. Libertado em consequência da intervenção britânica, esteve na França no início da Segunda Guerra Mundial. Foi detido duas vezes pelos franceses. Escapando na segunda ocasião, seguiu para a Grã-Bretanha e lá ficou durante os anos da guerra e a maior parte do resto de sua vida. Atuou como grande incentivador da realização do Congresso para a Liberdade Cultural de 1950, e tornou-se talvez o mais conhecido intelectual anticomunista da década do pós-guerra. Por conta disso foi hostilizado por Sartre, Camus, Simone de Beauvoir (com quem teve um caso), e outros comunistas franceses, inconformados com a crítica ao materialismo dialético que o livro resenhado levou a milhões de leitores. Na sua primeira edição, O Zero e 
o Infinito teve 420 mil exemplares vendidos em poucos dias. Desde então já foi traduzido para 16 idiomas. Grande jornalista que exerceu enorme influência pela força de seus argumentos e do exemplo pessoal, foi também como ficcionista que Koestler emancipou milhões de pessoas da servidão a Marx, Lenin e Stalin, influenciando ficcionistas como George Orwell, autor de A Revolução dos bichos. 
 
Escreveu mais de trinta livros. Para o português foram traduzidos apenas oito. Além do que inspirou a resenha desta página, encontram-se à disposição do leitor: Tempo de Quimeras; Ladrões na Noite; Chegada e Partida; O Homem e o Universo; O Fantasma da Máquina; Os khasares- a 13ª tribo; Os gladiadores- a saga de Espártaco. 
 
 
FILME
 
Título: O Zero e o Infinito
Autor: Arthur Koestler
Editora: Amarilys
Ano: 2013
Idioma: Português
Especificações: Brochura | 304 páginas
 
 
Sonia Machiavelli,  professora, jornalista, escritora

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