Eu te conheço de algum lugar

Por: Paulo Rubens Gimenes

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Renato era seu nome; “Cumadre Alzira”, como era chamado por toda a família. Assim  alcunhado em homenagem à sua madrinha, a ‘verdadeira’ comadre Alzira, que adorava puxar assunto com quem quer fosse, sempre a fim de um bom bate-papo, exatamente como seu ilustre afilhado.
 
E Renato era assim; qualquer hora, qualquer dia, com qualquer um – tudo era motivo pra ‘engatar’ um bom papinho.
 
Certa vez, Renato foi acompanhar sua esposa a uma consulta médica; sala de espera lotada e logo ele foi colocando em prática seu esporte predileto, “engatar” um bom bate-papo.
 
- Conheço a senhora de algum lugar. – disse à mulher sentada à sua frente.
 
- Não, creio que não. – respondeu secamente a senhora.
 
Nem o olhar de reprovação de Marlene, sua esposa, nem a secura da resposta da senhora diminuiu o ímpeto de Renato.
 
- Mas, tenho certeza, conheço a senhora de algum lugar – insistiu.
 
- Olha – a senhora respondeu educadamente depois de deter-se um pouquinho analisando a fisionomia de Renato – você deve ter se enganado.
 
Marlene, conhecendo bem seu marido, repreendeu-o:
 
-Renato, pare com isso! – sussurrou ao seu ouvido como só as esposas sabem fazer.
 
O silêncio voltou a tomar conta da recepção, onde todos tentavam se distrair da chata espera lendo revistas antigas e anuários médicos, distrações que nossos doutores acreditam ser de qualidade para seus pacientes.
 
- Tenho certeza absoluta- nosso herói era incansável – conheço a senhora de algum lugar! De onde é?
 
-Só se for de meu serviço – respondeu a senhora já irritada – eu trabalho na portaria do Motel Dallas.
 
Pane rápida. Marlene fecha sua tediosa revista e olha pro marido esperando uma resposta. Juntam-se a ela todos que estavam na sala. Sentindo a face avermelhar-se e o ensurdecedor silêncio da sala de espera, Renato colocou sua memória pra funcionar em ritmo de emergência, precisava lembrar-se de onde conhecia aquela senhora e não era, com certeza, de uma portaria de motel. 
 
Os segundos duraram uma eternidade, pelo menos para ele. De repente, com um sorriso de satisfação disparou:
 
- A senhora mora perto do Pestalozzi, fui lá semana passada entregar um botijão de gás. - disse ele em alto e bom som pra que todos ouvissem.
 
- Ah sim, agora me lembrei, você trabalha naquele depósito…
 
Mistério desfeito, todos retornaram à tediosa leitura de suas revistas. Renato, satisfeito por salvar sua reputação com sua memória. Sua esposa; bem, esposas são esposas, Marlene ainda pretende ir a casa daquela senhora pra ver se a história do botijão de gás é realmente verdadeira.
 
 
Paulo Rubens Gimenes, Publicitário e ex-conselheiro do Comércio da Franca

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