Boca fechada

Por: Chiachiri Filho

Dizem que em boca fechada não entra mosquito.
 
Para alguns, falar é prata e calar é ouro. Na verdade, muitas pessoas não têm a menor vontade de falar, dialogar, comunicar-se. 
 
Minha mãe tinha um tio que, de vez em quando, resolvia visitá-la. Sentava-se numa cadeira à porta da cozinha e ficava horas observando-a em sua lida diária. Não pronunciava palavra alguma. Às vezes soltava um resmungo e era só. Quando menos se esperava, ele batia com as palmas das mãos nos joelhos, levantava-se e dizia:
 
- A prosa está muito boa, mas já tá na hora de pegar o rumo.
 
Meu amigo Ênio Figueiredo, o saudoso Ênio, fonte de muitas crônicas por mim escritas, contou-me uma boa. Certa feita, ele estava no Rio de Janeiro visitando uns parentes. Ao ir embora, foram levá-lo até a rodoviária. No carro estavam o Ênio e mais  dois primos.  Um, o motorista, era conversador e foi falando com o Ênio  por todo o trajeto percorrido. O outro, sentado no banco traseiro, não falou nenhuma palavra. Permaneceu mudo, calado, silencioso, até chegarem à estação rodoviária. Ao descer do carro, Ênio virou-se para trás e falou ao primo caladão:
 
- Você não falou nada. Você  ficou quieto o tempo todo. O que está acontecendo, Clóvis?
 
E o primo respondeu:
 
- Enquanto vocês conversavam, eu estava prestando atenção.
 
- Atenção no quê?
 
- Nos postes do trajeto.”
 
- E daí?
 
- Daí é que eu contei 491 postes. Eu posso não gostar de falar, porém sei muito  bem prestar a devida atenção.”
 
Portanto, prezado leitor, se muitos não gostam de falar, por outro lado sabem prestar muita atenção nas coisas. Deles não lhes escapam os detalhes, os mínimos detalhes.
 
 
Chiachiri Filho, historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras
 

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