É como diz o ditado...

Por: Sônia Machiavelli

De primeiro, diria o amigo Luiz Cruz reproduzindo o falar mineiro de que está impregnado o francanês, a professora colocava na sala de aula, pendurada na parede acima do quadro negro, uma gravura sugestiva para inspirar os alunos. A partir da cena campestre ou urbana, quase sempre incluindo animais, a criança dava asas à sua imaginação e compunha o seu texto. O gênero era definido a priori: começava-se com descrição, passava-se pela narração e evoluía-se até à dissertação. O método caiu em desuso, mas valeu para muitas gerações. Era atividade que solicitava atenção, capacidade de fantasiar e, claro, certo domínio mínimo da escrita. 
 
Havia outra parecida, que por não contar com o estímulo da imagem, exigia mais à criatividade. A professora escrevia na lousa um ditado e, depois de comentar de forma genérica, pedia aos alunos que escrevessem uma história a respeito. Ainda me lembro das narrativas que inventei a partir de quatro deles: Quem semeia ventos, colhe tempestades; Mais vale um pássaro na mão do que dois voando; Em terra de cego, quem tem um olho é rei; Aquele que tudo quer, tudo perde. Bons tempos.
 
A atual pedagogia deve abominar essa didática. Mas continuo a praticá-la com meus alunos da Academia de Artes, com bons resultados no que diz respeito a provocar a reflexão a partir do senso comum. Repetidos por gerações, presentes em todas as línguas, ditados populares oferecem na sua forma concisa ricos elementos para discussão. 
 
Muitos dos encontrados em nossa língua portuguesa acham-se em dezenas de outros idiomas, numa similaridade de pensamento que já levou a tratados linguísticos e filosóficos- pois a linguagem é uma das vigas da filosofia. Mas alguns ditos (e aqui incluo expressões), são apenas nossos, brasileiríssimos. Lembro “isto é fazer baderna”, que deriva da presença caótica da artista italiana Marietta Baderna no Rio de Janeiro, em 1851: a moça causou frisson, como se dizia antigamente, ou simplesmente causou, como se diz hoje, e virou léxico. Outra intrinsecamente tupiniquim, “nem que a vaca tussa” foi usada pela presidente Dilma Roussef em ato político na cidade de Campinas, durante a campanha eleitoral, para se referir à impossibilidade de prejudicar os trabalhadores, caso fosse eleita. Menos de um mês depois da posse, seu ministro da Economia anunciou o ajuste fiscal que vai lesar direitos trabalhistas. Não é que, vendo-a na televisão naquele dia, com inacreditável cara de paisagem, outro ditado dos tempos de grupo escolar me veio célere à memória? Pareceu-me que via escrito numa lousa em enormes letras de forma: “Mais cedo se apanha um mentiroso que um coxo.”
 
A expressão “nem que a vaca tussa” era seguida, até meados do século passado, por “e o boi espirre”. Como a lei do menor esforço é uma tendência da linguagem oral, aos poucos foi-se elidindo a segunda parte. É fenômeno bem comum, assim como o é a apropriação regional. Cada grupo utiliza os ditados que mais contextualizam sua realidade. Se em grande parte do País ouvimos “quem vai ao vento perde o assento”, no Espírito Santo dizem “quem vai ao convento perde o assento”, talvez numa alusão ao famoso e secular convento de Vila Velha.
 
Não preciso ir longe para entender o dinamismo transformador da linguagem. Meu neto João, 4 anos, ao ouvir a mãe lhe falar nos momentos de pressa “pernas, pra que te quero?”, fez uma substituição muito curiosa e elucidativa de como o interesse interfere na fala. Seu ditado para as horas em que está muito agitado para sair e brincar é: “Pernas pra Kit Kat!”
 
Se o leitor não sabe, Kit Kat é o nome de uma barra de chocolate que ele adora.
 
 
Sonia Machiavelli,  professora, jornalista, escritora
 
 

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