Mundo cão!

Por: Paulo Rubens Gimenes

“Para a Malu, meu anjo de quatro patas, que após quinze anos de alegrias foi ‘campeá’ lá no Céu.”
 
 
A maió das maió injustiça que se acomete nessa vida é juntá, fazê associação de tudo quanto é ruim, tudo quanto é estorvo, com os cão, com os cachorro.
 
É vida de cachorro, dia de cão, sujeito cachorro, mundo cão; inté 
 
o dito cujo, o mardito, capeta, pemba, cramunhão, tumem é arcunhado de cão.
 
Que nem um mundaréu de gente, eu tumem já ganhei de Deus esse presente, e num é exagero nem bravata, afirma que um cão é um anjo de quatro pata.
 
E foro tanto os presente-cão de peludão a raspadim, de grandão a pixotim, de limpim a purguento, de cheroso a fedorento, de raça, vira-lata, sem rabo, com três pata; tudo quanto é cão eu já tive.
 
Mas os que me alembro mais é três, de três época diferente da minha vida; muita importança eles fez, cada um do seu jeito, cada qual na sua vez.
 
Na meninice tinha o Libiste, miúdo e arisco, baguncento e latidô, daqueles latido chato, finim, que entra nos ouvido da gente que nem batida na bigorna...tim..tim..Companheiro das minha peraltice, de corrê atrás das galinha, pesca no açude, caça passarim com estilingue, roba manga no pasto dos Siquerinha e vorta de lá com as boca tudo amarela, pra despois deita de barriga pra riba, esquentando o sol lá na pedra preta, cochilando naquelas tardes infinitas, eternas como que eu acreditava que seria os tempo de criança.
 
Mas num era, nada nesse mundão é infinito, já dizia minha mãe: “Tudo passa, passa o bem e passa o ruim tumem.”- e o Libiste, um pouquinho antes que eu, enjôo, desgostô dos prazer da meninice e deitô o cabelo, caiu no mato atrás de uma cadelinha quarque, foi...fui tumem atrás das dama e dos vintém.
 
Já home feito, nas lida de toca boiada, arrumei outro companheiro o Raiovaqui, tinha esse nome por causa das pia, igualzim elas que dava prosa pros radinho nos confins do sertão, o Raiovaqui tinha força de sobra, disposição pra aboia com a gente as muita cabeça de gado que nóis tangia de um lado pro outro desses brasis, debaixo de sol quente, de chuva fria, de noite escura e de pousadas hostis.
 
Que nenzinho eu, esse cão era força pura; eu garrando firme nas rédia da vida, domando o alazão do destino; ele, o Raiovaqui, enfrentando onça a dentada, garrando pelas oreia as rês desgarrada. Ah! Quando um home tem as força dos músculo, toda lida é alegria, toda peleja dá prazer. Mas tudo passa, tudo vem; vem o bem e o mal tumem.
 
As pele foi enrugano, os músculo minguano, as mão tremulano e aos poquim eu e o Raiovaqui deixemo a boiada da juventude se espaiá pelos pasto do tempo, sem força pra evitá, muito menos pra ajuntá de vorta.
 
Raiovaque, por obra de picada de cascavel foi campeá lá no céu; se foi...fui tumem pra outras paragem.
 
Quando a gente fica véio, tudo é passado, acontecido, as frase cumeça sempre com um ‘era uma vez’ e é aqui que aparece o úrtimo dos cão, do derradeiro dos três.
 
Que nem eu, Baleia parece presa nas memória das glória do passado; se num tá sentada, tá deitada, durmino pra sonha outra vez. A posque, quando o dia a dia é tristonho e o porvi assustadoramente medonho, o guerreiro fraco só encontra guarita é no sonho.
 
Acordado, é tudo mágoa, tristeza. A única gratidão é com a pacença daqueles que limpa minhas sujeira, que finge que num vê o leite derramado pela mesa, as migaia de pão que impotente derrubo pelo chão.
 
E nas véspera da partida, no epílogo da minha vida, óio os óio melzado da Baleia, que tumem óia pra mim; eu vejo ela, o Libiste e o Raiovaqui; ela vê o véio, o menino e o boiadeiro. Sô três, ela tumem, nós, nós é seis no começo do fim pra encontrá o Um, Aquele de deu esses presente pra mim.
 
Tudo passa, tudo que vai, vem. Passa os home, passa os cachorro tumem. A Ti, Deus, agradeço a vida, os cachorro e essa passagem. AMEM. 
 
 
*do livro “O Poeta e o Cantadô Uma Odisseia Caipira.”
 
 
Paulo Rubens Gimenes, publicitário e ex-conselheiro do Comércio da Franca
 
 

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