Presente

Por: Maria Luiza Salomão

Em cada atitude nossa, gesto, olhar, ação, deveria existir uma chamada, como nos velhos tempos, em que o professor dizia o nosso nome e tínhamos que responder: “presente”. 
 
Quem presente? Como presente? Quando presente? Às vezes o corpo está ali. Em outras, uma coisa substitui a presença física, mesmo quando presente: um bilhete, um regalo, uma comida, uma bebida. Ser presente tem a ver com a alma, essa escorredia, esconsa alma. 
 
Pois foi. Em um encontro. Às segundas-feiras, com a poeta, amiga, co-leitora de livros árduos, mas sábios. Companhia substanciosa, reflexiva, que me faz bem, quando eu, sem fazer chamada, ouvi “presente”. 
 
Foi o olhar, foi a entonação do que ela me disse, foram as palavras. Eu a senti presente. Ela me foi presente.
 
Era o dia posterior ao meu aniversário. É de praxe, é gentileza, é até rotineira, nas últimas décadas, a nossa troca de presentes, natal, aniversário, páscoa. 
 
Ela chegou, narizinho vermelho, sinal da sua emoção sempre recolhida e bem focada, para me dizer algo que não se sente preparada, diz ela, para dizer. Ela sempre diz melhor por escrito, ela diz, eu sei. E não trazia nada embalado. 
 
Discreta, sempre. Comedida ela sempre esculpe, pinta, desenha emoções em palavras, em versos, em poemas. 
 
Mas, nessa segunda-feira, recebi um sonoro presente. Nem coisas, nem cartões, nem poema, que também ganhei dela de presente, ela simples mente estava ali e disse, com o corpo e com a alma: presente. 
 
Nada pode mover montanhas, nem abrir mares, nem apagar raios, nem silenciar trovões, como quando alguém se faz presente. Se há ali o ser vivo corajoso, que sustenta a grandeza infinita de ser e estar presente, as montanhas se movem, os mares estagnam, os raios se recolhem, os trovões emudecem. Tudo se torna circular: o infinito cria tangentes que não fecham: elas criam fronteiras em ondas radiais.
 
Um cômodo, uma lousa, algumas carteiras, uma janela para um muro, para outra casa. O livro e duas mulheres, presentes.
 
Há pessoas que não suportam as ondas magnéticas de um ser vivo presente. Há mulheres que não suportam, ou suportam mal a gravidez, carne habitando a carne; há homens e mulheres que suportam o ato físico mais íntimo, mas não a intimidade infinita do espírito. 
 
A mim foi dada uma vocação, uma profissão de fé. Meu ato de fé está nessa capacidade de ser/estar presente, de corpo e alma, de todo ouvidos, todo pele, todo coração. 
 
Parece muito ser/estar presente, mas é dom dado para qualquiera. Para mim, para usted, para nosostros. 
 
Nessa segunda-feira corriqueira, ganhei o melhor e mais sonoro presente já recebido em toda a minha vida e jamais o esquecerei, enquanto viver. 
 
Desejo a você leitor, leitora essa experiência: o presente sem fazer chamada. Assim a matemática fica maluca: de dois, a se multiplicarem infinitamente, acontece o um.
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)
 

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