Querida Nicole,

Por: Eny Miranda

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Um dia você entenderá nossos complicados sinais de comunicação, dominará os signos linguísticos, com seus significantes e significados, e então poderá ler este meu registro (e não será tarde, porque para tudo, inclusive para a vida, sempre haverá um sentido novo). Por enquanto, você conhece apenas a voz de sua mamãe, os marulhos desse universo líquido que a envolve e o tum-tum compassado, vindo de algum ponto familiar e incógnito, que, como você, experimenta algo íntimo e indefinível. Também não faz ideia dos múltiplos e intrincados laços que unem os seres humanos, e não seria capaz de adivinhar suas muitas denominações, mas posso lhe adiantar que sou sua avó paterna, o que significa dizer: laços familiares, genéticos e afetivos nos unem fortemente. Isso você também aprenderá depois, no decorrer de sua vida.
 
Contudo, agora, sonhando com a existência de um sistema de comunicação livre de signos, tempo e espaço; contando com a possibilidade, ainda que remota, de ser “ouvida” e compreendida, aquém vida e além-mar, gostaria de lhe dizer que, há nove meses, acompanhamos sua vinda ao “mundo aqui de fora” - útero giratório, aberto e convexo, paradoxal e belo, em que você completará o seu desenvolvimento (como nós - ainda - completamos o nosso). Sim, é importante que saiba: não ficará indefinidamente nesse ninho morno, silencioso e penumbroso, nesse espaço pequeno e seguro, que é o ventre de sua mãe. Aí você está sendo gerada, Nicole, e, como dizia o poeta, “já sabemos todos/ que custa modelar-se/ uma raiz, um broto“, mas logo logo chegará a outro mundo, bem diferente desse só seu, e nele você terá de aprender a compartilhar, porque ele “pertence” a muitos seres, e está sempre aberto a outras chegadas. 
 
A primeira coisa que aprenderá a compartilhar será o ar: você deverá aspirá-lo com toda a força possível, ainda que dolorosamente, para se manter viva; e continuar a aspirá-lo e expirá-lo, em exercício rítmico, então quase imperceptível, por toda a sua vida. (Porque sua vida, a partir do nascimento, lhe será entregue; a você, Nicole querida, caberá, em grande parte, a manutenção do presente que recebeu: respirar, comer e beber; eliminar os excedentes indesejáveis do que comeu e bebeu; manter o coração pulsando; descobrir o mundo em que vive; guiar-se e deslocar-se nele... Será você, Nicole, a grande responsável pelas inúmeras conotações de (seu) viver. Mas, para isso, foi dotada de ferramentas maravilhosas, que aprenderá a usar, aos poucos, com o auxílio de seus pais, de pessoas à sua volta, que a amam, e deste mundo. Todos eles, e outros, agora ignorados, a ajudarão nessa aprendizagem). 
 
Compartilhados aqui também são os sons e a luz: seus ouvidos serão bombardeados por ruídos e vozes e notas agudas e graves, que provavelmente a assustarão, inicialmente, e seus olhos se abrirão para uma claridade, a princípio, ofuscante, dolorosa, mas que - como os sons - aos poucos se tornará familiar, desejável, porque esclarecedora; e sempre bem vinda, já que uma nova escuridão apagará, periodicamente, as maravilhas dessa luz. Aliás, você descobrirá que a vida aqui fora também pulsa, como o coração de sua mãe, e o seu, em ritmos e andamentos diferentes, mas obedecendo sempre a uma periodicidade. Aqui, vemos e sentimos e fazemos e aprendemos tantas coisas, Nicole... 
 
Compartilhamos ainda os afetos, e sentimentos outros que só o convívio saberá lhe ensinar. E aqui presenciamos fatos extraordinários - para a gente grande, ditos “corriqueiros”, mas não para quem aprende a passar várias vezes pelo susto primeiro de sua descoberta: jabuticabas maduras no pé; flocos de neve silenciando o ar; uma flor que se abre; a borboleta que encontra essa flor; uma lua cheia subindo entre prédios ou flutuando na linha do infinito; uma tarde de maio que se desfaz na luz matizada; relâmpagos cortando nuvens à beira do horizonte; o mar estertorando na praia ou dormindo nos longes; o perfume de uma “boa-noite”; o poder da palavra (e seus matizes idiomáticos), esta, que nos permite agora a comunicação intemporal da coisa mais preciosa da condição humana: o amor... Ecos universais e particulares, bens de todos e de raiz.
 
Acompanhando o que fez o Poeta, eu te saúdo e te abençoo, com a força íntima e intensa de ancestrais, radiculares humores: 
 
Nicole, vieste ao mundo no seio de nossa família. Mais do que neta, chamo-te minha irmã.
 
 
Eny Miranda, médica, poeta e cronista

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