Quarenta anos

Por: Ronaldo Silva

Chego a uma idade
Em que os versos já são raros
E o coração já não se inquieta tanto
À procura de amor
 
É um meio de caminho,
Um lugar desconfortável
Situado entre os ideais da juventude
E os pragmatismos da maturidade.
 
As despedidas dos mais velhos que se vão
Ficam cada vez mais corriqueiras (e mais penosas!)
Desejo valorizar bem
Cada momento ao lado dos que ainda tenho.
 
Quero ler Clarice e sua lucidez.
Tenho a mão direita pousada sobre o ombro de Drummond.
No mar da poesia eles remam minha frágil canoa.
E vou recolhendo peixes-versos.
 
Na cabeça fervem milhares de poemas.
Todos querem espaço no papel.
Saltitantes letras azuis e vermelhas
Em sua alegria pueril
 
No final das contas, o que importa mesmo
É pagar em dia as contas de “cidadão economicamente ativo”,
Garantindo assim nosso padrão de vida de
classe média orgulhosa e sorridente.
 
Por isso vou vendendo meus sonhos,
O melhor da minha intelecção
E o mais intenso das minhas paixões.
Oito horas por dia, religiosamente.
 
 
Ronaldo Silva, vendedor,  universitário
 

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