De primeiro

Por: Luiz Cruz de Oliveira

De primeiro, legisladores municipais exerciam suas atividades sem remuneração. As câmaras municipais surgiram baseadas nas existentes em Portugal, como representação e defesa dos interesses das elites locais e da metrópole aqui no Brasil. Ao longo da história, os vereadores tiveram suas funções modificadas.
 
Só a partir de 1977 é que o trabalho dos edis das cidades com menos de quinhentos mil habitantes passou a ser remunerado, graças ao “Pacote de Abril”, outorgado pelo General Ernesto Geisel.
 
Interesses políticos, econômicos e ideológicos à parte, para muitos, hoje, é difícil imaginar um vereador trabalhando sem salário para a comunidade. Pois assim o era. O poder legislativo municipal era desempenhado por cidadãos que, aliados aos membros dos poderes Executivo e Judiciário atuavam na busca de solução de problemas da comunidade. E, é claro que os interesses da comunidade muitas vezes se impunham e sempre houve cidadãos realmente interessados em resolvê-los. 
 
Em Franca, pelo bem ou pelo mal, muitos acabaram por imprimir seus nomes na memória da cidade.  Dentre eles, alguns ainda são assunto em conversas na Praça Barão: Abílio Nogueira, Flávio Rocha, Walter Anawate, Edson Ferreira Freitas, Ivon Rodrigues Pereira, Geraldo Alves Taveira...
 
Também pelo poder Executivo passaram homens por cujo trabalho e dignidade se impuseram na história da cidade. A conquista do real respeito e admiração da coletividade, sabe-se, não é inerente ao exercício do poder, é apenas o coroamento de uma vida de trabalho, dedicação e lhaneza no relacionamento com os munícipes - ajudado às vezes pela simpatia inata, poder de oratória e convencimento.
 
É consolador saber dessas pessoas, entre as quais Torquato Caleiro parece ter sido um exemplo; entre as quais Maurício Sandoval Ribeiro é um exemplo. Sua  atuação na administração de Franca foi decisiva para a melhoria da  infraestrutura da cidade.
 
As pessoas mais velhas e que ainda se lembram da primeira administração de Maurício Sandoval sempre fazem questão de ressaltar um aspecto de seu trabalho. Há alguns que se lembram até de números no que se refere ao que dizem ter sido a maior benfeitoria que Franca já recebeu.
 
Ao assumir o comando da prefeitura, em 1977, Maurício tinha ente seus auxiliares, o professor universitário e ex-bancário Antônio Reis, considerado até hoje por muitos o melhor secretário de finanças que passou pelo paço municipal. O próprio ex-prefeito ressalta a importância a importância desse e de outros auxiliares para o enfrentamento do desafio que tinham pela frente. 
 
Ao assumir, a equipe encontrou a cidade com 44 bairros desprovidos ou de rede de esgoto ou de rede de água. Alguns deles careciam de ambos os serviços. De toda a comunidade, apenas 44% recebiam a água encanada; apenas 33% usufruíam do benefício da rede de esgoto. Ao término da administração, em 92% da cidade de Franca havia rede de esgoto e, em 98%, havia rede de água. Isso significava que a rede de água percorrera uma distância de mais de 190 Km. 
 
Dizem que, naquela época, quando homens e máquinas furavam as ruas, instalavam manilhas, aqui e ali, pessoas cochichavam que o prefeito estava doido. 
 
- Onde já se viu político enterrar tanto dinheiro?
 
- Obra que ninguém vê não dá voto. 
 
Deu voto, tanto que Maurício foi reeleito e consolidou o respeito e a admiração que a cidade lhe devota. 
 
 
Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, autor de 23 livros
 

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