Perdoar para não sofrer

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

Quando o som da marcha nupcial teve início, Tereza, que sonhara com ela a vida inteira, sentiu-se traída pelo noivo que a forçara passar por esta situação. Não era mais ela, acolhia em seu ventre um ser inocente. Segurava-se para não chorar, pois queria parecer forte. Sentia-se incomodada em não fazer jus ao vestido branco, grinalda e flores de laranjeiras. Devotada a Nossa Senhora, prometera ir ao altar sem máculas. Seu vestido lhe parecia sujo, como o outro de laise branca com babados, que usara em dia de festa, no lugarejo onde morava, e que um menino atrevido manchara ,atirando torrões de terra. Este mesmo que agora tornar-se- ia seu marido. 
 
Alberto era um bom moço, mas impetuoso, não sabia dominar sua intensa atração por mulheres. Este desejo exacerbado o perseguiu a vida inteira. Teve uma vida agitada com seguidas traições e inúmeros filhos. Com sua esposa e com outras mulheres. Quanto ao mais, era trabalhador, tinha sorte nos negócios, muito amoroso com os filhos e com Tereza. Esta viveu submissa a ele e fortaleceu-se com a religião, único caminho para o consolo de suas mágoas. Tinha muita fé numa vida vindoura e, apenas, pedia ao Senhor a graça de amar, amar e perdoar. Perdoar para não sofrer.  E foi atendida, pois ela o perdoou, mas não esqueceu. Guardou as cicatrizes do seu coração ferido bem no fundo de sua mente e suportou sua sina com elegância e respeito.
 
Todos conheciam sua história de juventude e, sempre, foi muito admirada pelo seu exemplo de vida e fé, tornando-se referência no lugar. Solidária, não há quem precise de conforto que não encontre nela uma palavra de apoio e esperança. Mesmo velhinha, suas palavras são como um bálsamo para as dores dos que a procuram.
 
 
Maria Rita Liporoni Toledo, professora
 
 

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