As veredas do sertão

Por: Luzia Izete da Silva

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Debruçar-se sobre Grande Sertão: Veredas, é sofrer impacto já na primeira página. O que seria um “povo prascóvio”? Desconfiamos ao prosseguir a leitura- ignorante. O impacto do estilo roseano nos toma de assalto com seu metaléxico, leva- nos a embrenhar lentamente no jeito de ser dos mineiros, perpetrando nossas mentes no cenário escolhido- as minas gerais do século XIX.
 
Romance escrito num só fôlego, numa única narrativa como forma, Guimarães Rosa nos apresenta Riobaldo, jagunço que narra suas estórias, sua tradução do que é o sertão, do que ele é, seus medos e dúvidas, sua mística. O diabo existe? Está no redemoinho no meio da rua? Ele não tem certeza.
 
O fato de Guimarães Rosa ser mineiro é um privilégio na composição desta obra e um enlevo literário para nós. Como explicar o universal fazendo uso do regionalismo? “Esses gerais são sem tamanho...o sertão está em toda parte”. O sertão identifica-se, em termos historiográficos, com o lugar desconhecido, os embrenhados distantes dos povoados e vilas. Os sertões de Guimarães é o que Riobaldo não sabe, “só umas raríssimas pessoas” sabem. E o cangaceiro desconfia, narra suas estórias sempre sobressaltado. O diabo existe? “Acredita na pessoa dele?...Tem diabo nenhum”, conclui Riobaldo, mas não com tanta certeza, desconfiamos. O autor observa, cauteloso, através de Riobaldo e dos costumes vigentes: “Deus está em tudo, conforme a crença? Mas tudo vai vivendo demais, se remexendo, o diabo na rua, no meio do redemoinho”. 
 
Compadre meu Quelemém é a referência constante de Riobaldo, afirmando a mística roseana, tão próxima do que resultou na latinidade americana. A dúvida permanece do começo ao fim da obra, apesar de começar dizendo que “tem diabo nenhum”, e concluir ao final de 624 páginas que “o diabo não há!”, ficamos em dúvida se Riobaldo realmente acredita no que diz.
 
As estórias de Riobaldo resultam num emaranhado de pequenas estórias; e algumas são tão estranhas , alheias à geografia humana das Gerais; resultantes da erudição de Guimarães, que transcendem. ”O sertão é do tamanho do mundo”, traduz assim o autor, para melhor entendermos. E neste sertão de todo o tamanho coube descrever os catrumanos, esquecidos “caipiras” do norte das Gerais, as raízes de Minas refloradas no Grande Sertão. Coube também um verbo do metaléxico roseano sapirava, cuja raiz tupi-guarani nos remete ao significado de “olhos vermelhos”. O conhecimento de Guimarães é, por si só, muitas veredas, umas fáceis, outras assombrosas, sem desvendamentos, pois, “só aos poucos é que o escuro é claro”. Assim, Diadorim foi o escuro e o claro de Riobaldo. No sertão, compartilhado por todos, às claras, Riobaldo e Reinaldo são até rimas, observa este. Em apenas um momento Reinaldo se submete: “Riobaldo, você sempre foi o meu chefe sempre.” A distância torna-se imensurável quando se trata de Diadorim. É o não compreensível por Riobaldo, mesmo depois de ouvir: “Pois então: o meu nome verdadeiro é Diadorim” (p.172). Diadorim é a vereda indecifrável, tempestiva, sem doma; é o fascínio e o medo de Riobaldo. Convivem dia e noite pelo sertão, mas ao estar deitado ao lado dele, Riobaldo, solto em seus pensamentos, murmura: ”meu bem, estivesse dia claro, e eu pudesse espiar a cor dos teus olhos”. Para essa vereda, nem aos poucos o escuro ficou claro, visto que apenas com a morte de Reinaldo é que Diadorim torna-se revelado. A morte é a travessia? Sobra-nos a pergunta.
 
Em Grande Sertão:Veredas, destruído está o léxico clássico. É preciso atentar às palavras, senti-las calmamente, ouvir seu sotaque mineiro, como se estivéssemos numa conversa em algum recôndito lugar das Gerais. Além do linguajar próprio, em alguns momentos algo de lírico emana das palavras roseanas: “aí, quando é tempo de vagalume, esses são mil demais, sobre toda a parte: a gente mal chega, eles vão se esparramando de acender, na grama em redor é uma esteira de luz de fogo verde que tudo alastra...”, ou, ”E uns gafanhotos pulam, têm um estourinho, tlique, eu figurava que era das estrelas remexidas, titique delas, caindo por minhas costas”.
 
É assim, com tantas possíveis interpretações, que podemos ler o Grande Sertão, afinal, “mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende”. A sensibilidade para a observação junto ao povo das gerais, seu olhar afastado do Brasil, sua erudição, levaram Guimarães Rosa a indagar sobre nossos medos, nossas dúvidas, nossa travessia. Deus delega ao homem “afinar à vontade o instrumento”. Terá o homem de atravessar o sertão para desvendar suas próprias veredas, seu próprio Diadorim.
 
 
MINEIRO DE CORDISBURGO
 
Entender Grande Sertão: Veredas (1956) passa por conhecer seu autor, João Guimarães Rosa ( 1908-1967), que publicou também Sagarana (1946), Com o vaqueiro Mariano (1956), Corpo de Baile (1956), Primeiras Estórias(1962), Terceiras Estórias (1967), Estas Estórias (1969), Ave Palavra ( póstumo, de 1970). Mineiro de Cordisburgo, conhecedor de tantas línguas, começou a aprendê-las aos sete anos, por “gosto e distração”, como disse em uma entrevista. Como diplomata por tantos lugares do mundo, distanciando-se do objeto Brasil, pôde, com outros olhos, compor o grande livro sob duas grandes óticas, a meu ver: o Brasil e sua diversidade encantadora, cuja atração é evidente ao lermos sua biografia, consistindo aí num misticismo pessoal que transita por esse encantamento, e também pelo universalismo do que é o homem, pergunta clássica grega e sem resposta. Dessas duas óticas, penso eu, resultou Grande Sertão:Veredas. O regionalismo para apresentar o universalismo.
 
O nome Minas Gerais provém dos veios de ouro, espalhados de forma geral por aquela região, que no século XVIII abrangia parte de Goiás e Bahia. ”As Minas Geraes, tomarão[am] este nome, por serem continuadas suas faisqueiras, e nellas se achar Oiro” (in: A Inquisição em Minas Gerais, de Neusa Fernandes, ed. Mauad X, p.40). Assim como os veios de ouro, lugar onde o perigo é companheiro do homem, também são as veredas do Grande Sertão: incertas, misteriosas, imprecisas, desconhecidas. Minas Gerais, sem dúvida, é o coração do Brasil: o ouro atraiu para lá os bandeirantes miscigenados, formadores deste país; o branco aventureiro, a índia de índole nômade, o força do negro escravizado, todos atraídos pelo sertão - esse desconhecido e suas veredas incertas. Conforme nos diz Neusa Fernandes, as minas gerais selaram o encontro entre o norte e o sul do Brasil(...).  
 
O tropeirismo foi um dos liames dessa nova realidade que Guimarães Rosa filtrará pelo seu olhar de artista, consubstanciando-a em literatura, distendendo sua percepção entre o verdadeiro e o verossímil. 
 
 
LIVRO
 
Título:Grande Sertão: Veredas
Autor: João Guimarães Rosa
Editora: Nova Fronteira
Ano: 1956
Idioma: Português
 
 
Luzia Izete da Silva, professora de História na rede pública do Paraná, município de Prudentópolis

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