Poderes invisíveis da natureza

Por: José Borges da Silva

Quem assistiu à série Cosmos, exibida pela TV Globo no início dos anos 1980, certamente se lembra de uma cena em que o apresentador, o astrônomo Karl Sagan, apanhava na relva uma flor de dente-de-leão, composta de centenas de pequenas sementes com diminutas plumas brancas, e a soprava em frente à câmera, para demonstrar, entre outras coisas, a existência da atmosfera em torno de nós. Mas, essa cena também fazia pensar nos recursos usados pela Natureza para manter a vida no planeta Terra. Alguns anos depois, quando os meus filhos ainda eram pequenos, fiz com eles uma experiência sobre a questão que me chamara atenção no programa de TV do tempo da minha adolescência. Em um final de semana nos reunimos para contar, sem qualquer recurso técnico ou científico, o número de plantas diferentes (entre espécies e variedade de espécies) que pudéssemos identificar em um lote de chácara de cinco mil metros quadrados, mais ou menos três anos após o loteador havê-lo limpado, raspando o solo numa profundidade de dez centímetros. A raspagem feita pelo loteador tinha como objetivo limpar o lote de toda e qualquer vegetação, para apresentá-lo aos compradores aplainando e liso na superfície. Portanto, o fato de o terreno estar totalmente coberto de vegetação três anos depois já mostrava algo extraordinário. Lembro-me bem que contamos mais de cinquenta plantas diferentes só de arbustos, apenas em uma parte do lote. Não tínhamos meios de separar as gramíneas e outras ervas menores. Pretendíamos continuar na semana seguinte, mas acabei tendo outros compromissos e não voltamos mais à empreitada. Mas, a experiência parcial serviu para termos uma ideia do poder invisível de que se vale a Natureza para manter a biodiversidade. Ainda hoje, basta que deixemos um palmo de terra descoberto para que em poucos dias a Natureza o povoe de vegetais de variadas espécies.  Mas, qual será o limite dessa capacidade de regeneração do meio ambiente natural? Claro que não é infinito. Sabemos que hoje essa força de regeneração já está diminuída em relação aos anos 1980. Isso é óbvio, porque a nossa cidade teve diminuída e muito a biodiversidade do seu entorno nos últimos 30 anos. Na verdade, já estamos cercados de canaviais por todos os lados e lavouras não toleram a concorrência de outras espécies de plantas. Ainda há alguns mistérios não desvendados pela ciência e até mesmo os vasos do quintal ainda nos trazem algumas surpresas, vez ou outra exibindo espécies que não plantamos e que nem sonhávamos existir na nossa região. Mas, infelizmente há limites. As plantas usam dos mais variados meios de transporte para as suas sementes, desde voos espetaculares nas correntes aéreas a enxurradas e aparelhos digestivos de animais. Mas, infelizmente o seu maior obstáculo nos tempos de hoje não é o meio de transporte, mas os campos de pouso das sementes. A humanidade adora calçamentos, asfaltos, concretos, pisos cerâmicos...
 
 
José Borges da Silva, procurador do Estado e membro da Academia Francana de Letras
 

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