Esperar para escutar

Por: Farisa Moherdaui

Aos poucos, ela vinha percebendo estar com algum problema auditivo. Sem dor, mas sem entender as falas, incômoda situação. O jeito, procurar o médico otorrino que examinando aqui e ali acabou por receitar aquele remédio em gotas, duas vezes ao dia e durante três meses, mas a melhora não aconteceu. A dose do remédio foi aumentada e o problema aumentou também.
 
De novo, no otorrino que prescreveu o uso de um aparelho colocado no ouvido, mais parecendo um grão de bico preso por uma haste. Pelos testes, a paciente percebia o som que apitava, baixava, subia e o pior, o preço daquele grãozinho esquisito que ela não tinha condições de pagar. Pensou até em vender alguns pertences de estimação para a compra do tal aparelho: o relógio amarelinho comprado lá na loja “tem de tudo”, seus óculos escuros trazidos do Paraguai, uma pulseira de plástico, presente do falecido e algumas outras relíquias, mas ainda estava faltando muito dinheiro.
 
E foi num dia qualquer que alguém a aconselhou a procurar o INSS onde poderia conseguir o aparelho e sem despesa nenhuma, por conta do Estado e da aposentadoria. Foram dois longos anos de espera, mas um dia o aparelho chegou. Feliz da vida ela pode ouvir as falas, o rádio, a TV, tudo o que tinha direito, mas por um mês apenas porque o aparelho pifou e ela retornou ao INSS para reclamar os seus direitos.
 
Entra na sala de espera onde encontra  pessoas muito sérias, acabrunhadas, falando pouco. Ela até que procurou iniciar um bate papo, mas ninguém lhe deu ouvidos. Foi quando se lembrou de que se toda a gente ali estava à espera do aparelho auditivo, pois todos ouviam pouco e ... pra que falar se ninguém a escutaria?
 
Mas o aparelho tão esperado foi entregue a cada pessoa e agora sim, ela podia ouvir as amigas, as netas, atender ao telefone, ouvir suas músicas, a voz do vento, o canto dos passarinhos e,segundo o poeta, até “ouvir estrelas...’’ 
 
 
Farisa Moherdaui, professora 
 

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