O garotinho

Por: Maria Luiza Salomão

A aventura: subimos a montanha que circunda a cidade da Patagônia Argentina, em um passeio chamado El Balcón de El Calafate.  A bordo de um “tanque de guerra”, o inglês land-rover, defender, 4x4. Vi o mundo pela janela, em ângulo de 40 graus. Buracos e pedras não são obstáculos para ele que, dizem, e eu acredito, sobe paredes.   
 
Do Balcón, avistamos o muy grande Lago Argentino - 150 km de extensão e 50 km de largura - naquele azul só possível ao lado de montanhas com neves eternas, água degelada de rios congelados.  Do cume vimos, ao longe, abaixo, a cidade com nome da frutinha arbustiva, calafate (parecida com mirtilo). Da cidade esse paredão areento na cor, e sólido, parecia inexpugnável e cá chegamos...
 
O guia nos deixa a caminhar, na descida, entre a areia e rochas que despregaram milhões de anos atrás, rolling stones, da condensação de gelo acumulado pela neve contínua. As pedras, de cor diferente da areia, parecem incrustações de jóias, na paisagem. Algumas pedras são monumentos esculpidos pelo vento patagônico, esse artista secular. 
 
No land-rover, um casal, ele americano e ela argentina, que moraram nos EUA, estabelecidos em Buenos Aires, e os filhos: George, 2 anos  e Charlie, 5 anos,  que falam inglês e compreendem o espanhol. O pai fala mal  espanhol.  George, o mais sociável da família. Charlie, só chora, ao andar pelas paragens quase desérticas, pedrosas e arenosas, que nos faziam deslizar. George não andava, corria e caía um montão de vezes. Charlie, apavorada, só aceitava a mão da mãe. 
 
Uma caminhada de quinze minutos sem o guia, Nicolas, que nos aguarda, na virada da estrada pedregosa, com sanduíches. No panelão de ferro, braseiro abajo, a carne argentina grelha com cebola e pimentão. Refrigerantes. Malbec para nosostros.  Aos ares livres, pré-históricos, a refeição não é frugal, é banquete alimentando corpo e alma. 
 
Sentamos em tocos de árvores, à mesa rústica, com o som do vento, e palavras de encantamento. George inventa de carregar uma pedra enorme, a poucos metros abaixo da mesa de refeição. A pedra, pesada para nós, adultos, em trecho inclinado imenso para suas perninhas.  Abraçado à pedra, corpinho ereto, deu trinta, quarenta passinhos em nossa direção, o pequeno Hércules.  Tentou morder a pedra esmagada contra o peitinho, do tamanho do seu tronco, dentes como uma terceira mão.  Não desistiu, olhinhos ligados ao pai,  muito cool.  Em câmera lenta...mas consegui me conter no desejo de ajudá-lo: Yeahhh, George! Very well. 
 
Que determinação!  Ar de vitória no rostinho: comovente. Coragem: mãozinhas e perninhas a carregar a sua pedra na sua missão, eleita. Forjamos a autoestima assim, em camadas de gestos e ações, como os de George, como as montanhas arenosas, em El Calafate. 
 
A paisagem de milhões de anos - leito de mar d´antanhos e fósseis de conchas e dentes incrustados nas pedras - é boa metáfora para a autoestima forjada, em camadas temporais de vivências arenosas e pedregosas, a esculpir  o que somos - hoje. 
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)
 

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