A morte lenta de Zelinda

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

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Com a promessa de que terminaria seus estudos depois de casada, vestiu-se de noiva e o recebeu no altar. Não sabia que ao deixar sua família e acompanhá-lo estaria aventurando-se em doloroso e angustiante caminho. Jorge a queria junto dele pela vida toda e, de fato, a teve, oprimindo-a, humilhando-a e tornando sua vida um tormento. Homem tosco, rústico nunca permitira que ela estudasse e nem tivesse vida própria. Nascidos os filhos, Zelinda tornara-se uma serva do lar. Bem sucedido nos negócios, ele a tratava com desdém. Diante de seus amigos, criticava suas falas, preteria suas ideias e as retificava para não parecer que ela as pudesse ter. Corrigia seu comportamento como se ela estivesse, sempre, errada. Tornara-se um déspota, um algoz. Separações eram incomuns na época dela. Restava-lhe a submissão e tinha os filhos... A ausência deles que depois de encaminhados rumaram para bem longe, fugindo daquele ambiente hostil, deixava-a mais só. Sempre guardara a vontade de terminar seus estudos, ter um projeto próprio, inserir-se nas atividades sociais, buscar uma atividade prazerosa que a completasse. Sonhadora de desejo irrealizável. Só se ele lhe faltasse. Este pensamento a ergueu de sua desilusão e a sustentou por muitos anos. Imaginava-se morando em outra casa, mais aconchegante, decorada a seu gosto e, principalmente, sem a presença incômoda e aterrorizante dele. Talvez até, mudar-se para uma cidade à beira–mar e caminhar pela orla borbulhante, livre, sentindo apenas a morna brisa em seu corpo.
 
O tempo passava e ela vivia de sonhos. Jorge tornara-se mais exigente e inflexível. Envelhecera e a arrogância aumentara. Em sua insensibilidade diária, diante do sofrimento dela, simplesmente a ignorava. Zelinda fragilizava-se, dia a dia. O ar lhe escasseava. Sentia dores e um cansaço permanente. O que fazer? Ideias tenebrosas a assaltaram. Pensou em matá-lo. A razão a chamou a si. Seria condenada e, apenas, mudaria de cárcere. Preferiu morrer. Seu coração contraído de mágoas, contido pelo amargor, riscado de dissabores, obstruído pela dor, decidiu ser solidário a ela. Disse não. Sucumbiu.
 
 
Maria Rita Liporoni Toledo, professora

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