Roda, livro!

Por: Eny Miranda

Bendito o que semeia livros, já dizia o poeta, o que não é exagero. Levar o povo a pensar, através da boa leitura é, para uns, trabalho; para outros, missão; para poucos, ato de amor e fé.
 
Neste mundo de tempo cada vez mais curto e mais valorizado, comunicação cada vez mais rápida e mais volátil - tempo de economia de palavras e de letras -, disponibilizar a todos quantos espontaneamente as procurem, no espaço de um shopping center, páginas e mais páginas escritas no papel, com frases expressas em sua inteireza, muitas vezes fruto do trabalho minucioso de um artífice do verbo - pura ourivesaria - ou verdadeira explosão da arte de um mestre, só para levar a quem as lê coisas de que apenas a magia verbal é capaz: a beleza e a força do dito e do sugerido, isto vai além do ato de fé, chega ao exercício de coragem, porque traça rota de colisão com o hábito bip-bipiano da atualidade, acende sinal vermelho no fluxo supersônico da vida, implica tomada de tempo, disponibilidade não só para leitura, mas também para ruminação. Segundo o filósofo Schopenhauer, “só com ela [a ruminação] é que nos apropriamos do que lemos, da mesma forma que a comida não nos nutre pelo comer, mas pela digestão.” Para ele, “os pensamentos postos no papel nada mais são que pegadas de um caminhante na areia: vemos o caminho que percorreu, mas para sabermos o que ele viu nesse caminho, precisamos usar nossos próprios olhos.” A leitura “precisa deixar marcas no espírito.” O que impõe outro desafio: Como desenvolver em alguém viciosamente conectado a flashes, telas e clics o gosto de ler com atenção palavras e frases inteiras, e de ruminar o lido?
 
Por isso, hoje não falarei das árvores - as quaresmeiras - abertas em seda, cor e beleza, enfeitando o cinza das ruas, vestindo de delicadeza a cidade. Falarei de um gesto. Um gesto que ajuda a vestir de esperança o homem como ser pensante e sensível, capaz de comungar ou contestar ideias; de fruir, gerar e disseminar arte; de argumentar e criar; capaz de ler - em seu primitivo sentido latino, provindo da agricultura: legere, significando “colher, escolher, recolher” do pé os melhores frutos - e de refletir. Falarei da iniciativa da médica dermatologista Rita Silvestre Moscardini, minha colega e amiga, e da escritora Elaise Mello Barbosa, outra mulher de fé. Falarei da Geladeiroteca Roda Livro, aberta ao público na última quinta-feira, no Franca Shopping, onde se encontram muitos exemplares “para emprestar, gratuitamente, sem burocracia. [Se você gostar] de algum, leve-o para casa, leia-o, divirta-se! O mais importante para o Projeto dar certo é a conscientização de que é preciso cuidar bem do livro e devolvê-lo, para que outros o possam ler”, como dizem, entusiasmadas, Rita e Elaíse. Implantado o “plano piloto”, ambas pretendem dar o outro passo: o do incentivo à leitura em profundidade, à leitura reflexiva. Isso, convidando autores francanos e contadores de história para conversar com o público.
 
Não, não falarei desse gesto, que fala por si mesmo. 
 
Convido:
 
Prezado Leitor, não deixe de visitar a Geladeiroteca Roda Livro, no Franca Shopping. Compartilhe, levando e trazendo livros, semeando páginas, fazendo o povo pensar.
 
 
Eny Miranda, médica, poeta e cronista
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras