Paulo Gimenes: cantadô e poeta.

Por: Maria Luiza Salomão

Adoro a manhã dos sábados: acordar e ir me deixando levar pelas tarefas impossíveis de fazer durante a semana; descobrir lazeres diferentes, aonde acordar. 
 
Queixa-se, a boca miúda, de falta de cultura na terrinha. Mais madura, tenho buscado e achado o quê e com quem fazer extraordinárias atividades, em meio ao habitual estilo interiorano de ser. 
 
O Almanaque Sebo, na Júlio Cardoso, oferece, às 11 horas de alguns sábados, a apresentação musical de bandas ou duos francanos, em uma roda de quarenta a cinquenta pessoas, entre livros novos e usados. Ambiente ricamente bom. 
 
No último sábado, 7 de março, Paulo Gimenes se apresentou, com o seu último livro cantado, ou encantado, em que se lê poesias e crônicas suas, acoplado um CD, com músicas de sua autoria. 
 
Cheguei atrasada e mergulhei em atmosfera emocionante; pessoas que conheço, e que desconheço, ouviam o cantadô quieta e respeitosamente, lágrimas nos olhos. 
 
Simplicidade é a tônica de Paulo para contação de causos e para a interpretação musical medida e discreta, movendo afetos em ondas sonoras (e outras não mensuráveis, por afetivas). Ele já tem fã clube. 
 
Perpétua Amorim, sob coordenação de Rita Mozetti (EJA), Paulo e eu, nós fizemos, ao longo de um ano, saraus pelos Centros Comunitários de alguns bairros em Franca, declamando poesias. Paulo encantava as pessoas, com sua música sertaneja de raiz, na doçura ao falar - de coração para coração - coisas do cotidiano de todo mundo. Cantando a “roça” que quase não mais existe. Roçando memórias.
 
O povo da roça, o que mudou para a cidade, traz a memória do então vivido. A natureza desarma o espírito, mantém o essencial humano, que é também natureza.  A memória do povo da roça se faz na música de raiz. E, com ela, vem o cantar junto, deixando o coração quentinho feito pão de queijo feito em casa, na hora. Paulo Gimenes zela e ativa a memória sertaneja, na grande maioria de suas criações: poesias e cantorias.
 
 “Conjugando Franca”, de sua autoria, já é um popular hino da Franca. Meu sábado fincou raiz na memória, hora e meia ouvindo causos e cantando junto, com a dupla. 
 
“Simplicidade”, diz André Comte-Sponville, é “o contrário do narcisismo, da pretensão, da autossuficiência”. Ela traz generosidade fácil, e dissolve falsidades, esnobismos, artificialidades. Nada mais contrário à simplicidade do que querer parecer simples.  Pelas ações benfazejas, do bem ser simples, temos repouso...temos paz!  
 
A simplicidade acende fogueira na alma do nosso sertão, o “de dentro”. “Ser simples” é não ser dissimulado, não ser calculista, não ter segundas intenções. Simplicidade é antídoto eficaz contra o narcisismo, doença epidêmica da civilização contemporânea. 
 
Coração alargado, Paulo conta histórias para amar as gentes; ama as gentes e instaura paz. Louvado seja o poeta cantadô, no seu ofício sofisticado de arrebanhar fundos sentimentos, na rasante dos nossos olhos e ouvidos, semeando tréguas sinceras nas endurecidas corruptelas de palavras mal ditas: sossegado e pacífico, desarmado: mergulho cordial. 
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)
 
 
 

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