Aos olhos de Chico Franco

Por: Roberto de Paula Barbosa

Há alguns dias acabei de ler o livro Chico Franco, de meu amigo Luiz Cruz de Oliveira, e ao término de cada história eu me via passeando na Franca da década de cinquenta e sessenta.
 
Sob as pálpebras do Chico Franco, me vi em uniforme de marinheiro, todo branquinho com listas azuis, então com seis anos de idade, carregando minha lancheira amarela, sob o olhar atento da Professora Sônia Luz, do Grupo Escolar Cel. Francisco Martins, juntamente com a classe, todos com o mesmo uniforme, em um passeio nos jardins em frente do Hotel Francano. Em certo momento, apertou-me uma dor de barriga e fui falar com a Professora – naquela época ainda não as chamávamos de “Tia”.  Enquanto, constrangida, foi falar com os recepcionistas do hotel, não houve mais tempo de espera e saí correndo pela Rua Campos Salles, em direção à Sapataria Barbosa, de meu pai, que ficava em Frente à Cadeia, nos fundos do Grupo Escolar, ainda sob o olhar baço do Venerável Sr. Chico Franco. Não há necessidade de dizer que meu pai teve que montar em sua bicicleta Humber, ir até à nossa casa para buscar roupas limpas para o seu menino.
 
Quando o Chico Franco menciona a Rua dos Bondes, vejo-me nela, onde eu morava, no último quarteirão, só que no lado oposto da morada dele, e a rua terminava em um buracão, que ficava no Campo das Galinhas e Chácara das Freiras. Juntamente com os moleques da Vila – um cortiço que havia como última construção antes do buracão – esquadrinhávamo-lo, até o córrego Cubatão, onde acabava. Vi-me nadando pelado nas águas limpas do córrego, aonde as mulheres da Santa Cruz vinham lavar roupas. Chegando a casa, já tarde, meus pais queriam saber por onde eu andara e, diante da mentira, já que meu cabelo entregava-me, levava umas correiadas para aprender a não mentir.
 
Assim, em cada história do Chico Franco, eu me vi passeando por elas. Rua da Estalagem; jogo da Francana com o Araçatuba em 1977, com vitória de 2 x 0, subindo para divisão especial; o Sr. Jorge Kairalla, atencioso em sua “A Lâmina de Ouro”; Agência Brasil, onde comprava cadernos; ver os brinquedos, não os podia ter, e a chegada do Papai Noel, na vitrine da Casa Bettarello, onde tudo era “Bom, Barato e Belo”. 
 
Os contos, no livro, estão em ordem alfabética, motivo pelo qual me vejo com seis anos, vão aos doze, volta aos oito, mas aviva-me a memória e dá-me uma saudade indômita, deixando-me com olhos marejados quando as pálpebras do Chico Franco fecham-se, fazendo com que meu coração fique apertadinho pela mão do passado, que só os seus olhos tem capacidade de aliviar.
 
 
Roberto de Paula Barbosa, aposentado e leitor
 

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