O dia em que o sonho acabou

Por: Everton de Paula

Lembro-me bem do dia em que a magia terminou. Mas prefiro recordar o tempo em que ela ainda existia.
 
Havia o irmão mais velho e os primos. Costumávamos brincar juntos naqueles intermináveis dias de verão, no final da década de 1950. Nunca mais haverá verões como aqueles, a não ser para os outros. Éramos cuidados por pessoas que sabiam tudo, nossos pais. Não havia pergunta sem resposta, choro sem acalanto e víamos tudo com uma clareza que agora me escapa. Nossas mentes infantis sonhavam e projetavam imagens de tal natureza que nem os poetas conseguem transmitir.
 
Não mais que quatro garotinhos na época; brincávamos naquele espaço de tempo no qual os dias são longos, em que nos contentávamos com pouco, e quando tudo era possível. Um universo que só permitia a entrada de sonhos, gatos, cachorros, pombos e outros animais, que sabiam aproveitar um dia de sol. (Já não consigo conversar com um gato como sabia fazer naquele tempo. Tentei, em vão.)
 
Nossos brinquedos eram baratos porque os nossos olhos transformavam as coisas muito facilmente. Enquanto as meninas brincavam de bonecas (achávamos ridículo), recortávamos nossos heróis (Capitão Marvel, Falcões Negro, Flash Gordon...) dos gibis, colávamos os recortes sobre um papelão duro e nós os fazíamos voar. Isso me deixa um pouco intrigado: será que nossos heróis inventados estariam programados para dizer exatamente o que uma criança tem em mente? É claro que não! Quando brincava, eu fazia a voz do herói, e o que ele dizia era diferente, todos os dias. Hoje, os heróis de plástico falam coisas robotizadas, mas sempre a mesma coisa. Podou na raiz a criatividade de nossas crianças.
 
Pipas no céu.
 
Carrinhos de rolimã na rua quase deserta.
 
Peladas com bola de meia no campinho de terra.
 
Nós criávamos nossos próprios brinquedos e  inventávamos as regras para eles.
 
Quando iniciávamos um campeonato de botão (futebol de mesa), imitávamos o barulho da torcida. Tenho até hoje minha equipe do Santos: lá estão no ataque, com os nomes amarelecidos pelo tempo – Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Havia um primo que irradiava os jogos; fabricávamos nossas próprias traves e guardávamos nossos times em cima do guarda-roupa, imaginando que eles, os jogadores botões, estivessem hospedados num hotel de montanhas, onde se revigorariam para as próximas partidas.
 
Quantas vezes sentávamos em volta do tabuleiro do banco imobiliário. A Avenida Copacabana era o lote mais barato; a Avenida Paulista o mais cobiçado; havia as estações de trem, a caixa de beneficência, a cadeia... E a imaginação ia a mil!
 
Construímos cidades miniaturas ao redor de uma mangueira, com argamassa feita de água e areia. Pavimentamos caminhos e estradas, nas quais instalamos até sinais de trânsito, hexágonos de papelão sobre pauzinhos de picolé. Caixas de sapato eram postos de gasolina onde nossos carrinhos de plástico se abasteciam. Como bastava tão pouco combustível para inflamar o fogo de nossos sonhos! Agora, quanto é necessário de nossos esforços interiores para conservar viva a realidade do cotidiano!
 
Curiosos, às vezes nos esgueirávamos até o cemitério. Caminhávamos com dificuldade em volta das lápides e líamos cada inscrição duas, três ou mais vezes. Uma, particularmente, sempre nos deixava tristes: “Nosso querido foi-se embora!” E sempre nos púnhamos a imaginar como seria a morte de um pai, de uma mãe. Tristeza de criança invadia nosso peito. Engolíamos em seco, não chorávamos e caminhávamos eretos para nossas casas, cada um administrando o melhor que podia sua dor do que poderia acontecer.  Essas visitas causavam noites insones. Mas estávamos ali, firmes, unidos, irmanados... Não poderíamos divagar demais; afinal, as provas de verão se aproximavam e a conta de frações me aporrinhava o suficiente para embaralhar emoções. 
 
Lembro-me do dia em que o sonho morreu.
 
Fui para o quintal após uma tarde inteira de aulas. Chutei um bagaço de manga, sentei-me no chão. Bem-te-vi lamentou minha solidão. Esperei pelo piscar do semáforo de nossa cidade miniatura que não acendeu. Esperei pelo barulho da torcida, pela narração do jogo... Esperei...
 
O vento soprou. Uma porta bateu com estrondo em algum lugar. Um cachorro latiu à distância. Fiquei sentado ali muito tempo, sem pensar em nada. Então, voltei para casa.
 
As coisas mudaram desde então. Primeiro, de forma sutil, depois rapidamente.
 
Nunca perguntei para os meus primos, nem mesmo a meu irmão, como foi para eles o fim do sonho. E acho que nem quero saber!
 
 
Everton de Paula, acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 43 anos
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras