Olhar sobre as cerejeiras

Por: Paulo de Moraes Mendonça Ribeiro

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Quem sabe o que é o Hanami? Hanami é a tradição japonesa de contemplar as cerejeiras em flor, que resplandecem - delicada e fugazmente - poucos dias por ano. É um ato de contemplação estética da beleza e da força da natureza, uma homenagem à vida. No Japão moderno, no Hanami se realizam festas ao ar livre embaixo das árvores floridas.
 
O filme “Hanami — Cerejeiras em Flor” nos remete a questões básicas da condição humana: somos seres frágeis, separados ao nascer e ao mesmo tempo profundamente dependentes uns dos outros; e mais, somos todos finitos, limitados ao curto tempo de uma vida. Mesmo quando se alcança a maturidade, a vida é breve; 90 anos, que seja, é pouco, se formos pensar bem. Assim, a protagonista do filme, Trudi (Hannelore Elsner), nos faz pensar: como dar amor e felicidade a alguém que você ama, a quem dedicou quase toda sua vida, e que está prestes a morrer de uma doença terminal? 
 
Trudi descobre que seu marido Rudi (Elmar Wepper) está com uma doença disseminada pelo organismo, incurável, e, seguindo a sugestão dos médicos, decide aproveitar o tempo remanescente fazendo uma viagem de férias e assumindo a responsabilidade de ocultar-lhe a verdade sobre sua doença. Decidem visitar seus filhos em Berlin, o que ocorre sem ninguém saber que Trudi estava promovendo uma viagem de despedidas do pai. Mas como o tempus fugit, na correria do dia-a-dia os filhos não têm disponibilidade para os pais... Todavia, o inesperado irá mostrar a sua cara: quem vive e quem morre? Para estar vivo basta o coração bater? Que coração: o do peito ou o da alma?
 
Durante a viagem, Trudi, que já está elaborando o luto pela separação de seu amado, perde a inibição de expor a ele os seus pequenos prazeres estéticos. Um deles, exercitar uma modalidade de dança contemporânea chamada Butoh, que é uma dança moderna japonesa que busca uma forma de expressão não necessariamente coreografada, nem presa a movimentos estereotipados que remetam a uma técnica específica ou rígida. Ela busca o fugaz, o momento presente e a impermanência. Esse é um tema central do filme: porque não expor ao outro quem realmente somos e ver se isso reverbera de alguma forma na maneira como a pessoa lida consigo mesma e com os outros ao seu redor? Seria pela falta de tempo e disponibilidade ou por uma  certa covardia e preguiça? E o mesmo não se aplicaria numa relação analítica?
 
A relação amorosa – e este filme é também um romance – é efêmera; como nas maravilhosas floradas das cerejeiras, no amor temos que tentar deixá-lo florir e revelarmos nossa essência em sua plena força e dor. Aí então, devemos tentar aproveitar ao máximo o breve esplendor do amor. Em geral, fugimos de desabrochar quem realmente somos, evitamos mostrar nosso verdadeiro Eu, expondo nosso coração no que ele tem de belo, de frágil e de doloroso...
 
Trudi e Rudi, os protagonistas desta bela estória, enfrentando suas dores de finitude e separação, irão lidar com as dores da vida das quais geralmente nos evadimos; fazem isso buscando sua evolução pessoal. A diretora, Doris Dörrie, parece concordar com essa ideia. Numa entrevista sobre o filme ela afirmou: “O sofrimento é um processo de integração. Primeiro, há dor infinita pela separação física e a consciência de que um nunca mais poderá se encontrar com o outro fisicamente. Mas esse processo também se torna uma espécie de integração interna quando, de repente, um passa a carregar o outro internamente. Isso conduz a um diálogo interior que não cessa com o tempo, um diálogo que não pode ser interrompido.”
 
 
A DIRETORA
 
Doris Dörrie nasceu em Hanover, Alemanha, em 1955. Estudou cinema na Califórnia, em Nova York e em Munique. Realizou vários documentários e foi crítica de cinema para o jornal Suddeutsche Zeitung. Estreou no cinema com  Straight through the heart  em 1983. Tornou-se sucesso de público e crítica com a comédia  Homens  em 1985. Enlightenment Guaranteed, de 2000, foi uma das primeiras realizações alemãs em tecnologia digital.
 
Hanami-Cerejeiras em flor  foi premiado como melhor filme no Bavarian film awards e no 58º. Festival Internacional de Cinema de Berlim. Doris diz que foi inspirada a fazer este trabalho por sua história pessoal, filmes japoneses antigos (em especial os do cineasta Yasujiro Ozu), além de seu fascínio pelo Japão e pelo butô. Nele ela trabalha com liberdade e flexibilidade. Rodou o filme com uma câmera pequena em Tóquio e Allgäu,  na Alemanha. Conforme ela diz, “é  muito divertido quando você percebe que ficção e realidade têm a mesma pulsação. É aí que coisas maravilhosas acontecem.”
 
Alguns de seus filmes têm sido apresentados no Brasil. Além de Hanami-Cerejeiras em flor, há  Felicidade, Que caramba é a vida, Elas me querem e Naked, que aqui recebeu o nome de Tirando a roupa.
 
Doris Dörrie também é autora de livros. O Vestido Azul, publicado em 2002, é romance onde ela explora a questão da morte, e da procura por proteção pela dor da perda, em um vestido azul. Em japonês se usa a mesma palavra para pele e roupa, sugerindo a procura pela pele que recobriria a tristeza e a dor.(PMMR)
 
FILME
 
Título:  Hanami - Cerejeiras em Flor
Direção: Doris Dörrie
Duração: 127 minutos
Ano: 2008
 
Paulo de Moraes Mendonça Ribeiro,  médico e psicanalista

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