Mentira ou valentia?

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

Coronelzinho Lima, como era chamado amistosamente por todos que o conheciam, era tido como pessoa de bom trato, íntegro e trabalhador, qualidades essenciais para um herdeiro de infinitas terras, num aprazível vale, entre as margens do Rio Grande e o sopé das montanhas esverdeadas da Serra da Canastra. Estas marcavam lá sua presença e continuavam para bem longe, enaltecendo outros sítios e espaços. Era por amor que ele cavalgava muitas léguas, sem ver viva alma, para visitar a jovem de olhos amendoados e sorriso franco que o encantara. Tinha permissão para falar com ela, mas seu pai ainda não dera a palavra final para a oficialização do noivado, a despeito de ser ele  o jovem mais abastado da região. Aos sábados, ele saía de sua casa, ao entardecer, passando por uma trilha onde havia mato cerrado, lavouras, riachos com pontes precárias de madeira, pastos, mas nada o impedia de chegar, à noitinha, e passar horas de enlevo, admirando o doce encanto de sua escolhida. Para voltar, o caminho tornava-se perverso. A escuridão cegava-lhe os olhos e ele confiava nos sentidos de seu alazão que conhecia o percurso. Só tinha ajuda do luar e do céu estrelado, quando aproveitava para cantar versos a sua amada. Em noites de chuva e tempestade, nem a capa de lã, que cobria cavaleiro e parte do cavalo, o protegia totalmente. Para o jovem amante tudo valia a pena.
 
Certa vez, ao despedir-se, enquanto colocava o pé no estribo e deixava o outro no chão, por horas, ameaçando ir embora, mas querendo ficar, contou ao futuro sogro, na tentativa de conquistar sua confiança, o que lhe acontecera, uma noite, quando encontrara um bicho de sete cabeças, lhe impedindo a passagem. Era uma figura estranha, com corpo humano, uma cabeça no centro e mais seis, três de cada lado, ligadas ao tronco por hastes. Todas eram luminosas e se movimentavam. Rapidamente, ele sacou seu revólver e acertou seis delas. Enquanto recarregava sua arma, a cabeça restante desapareceu na escuridão. Nenhum sinal ficara no local. Na semana seguinte, o bicho apareceu, no mesmo lugar, com apenas uma cabeça e ele não teve dúvida, liquidou-o de uma vez. Em seguida, o alazão, com o pelo arrepiado, disparara fazenda a fora.
 
Acreditando ou não, o pai da moça marcou o casamento, pois além dos outros predicados, o noivo era valente ou um grande mentiroso. De qualquer forma daria um bom marido
 
 
Maria Rita Liporoni Toledo, professora
 

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