Os inocentes

Por: Luiz Cruz de Oliveira

A história que conto não é de minha lavra, há tempo exaurida, nem da minha bateia, enferrujando em algum canto da tapera. É relato  ouvido por mim de mineiro lerdo no falar, porém já ledor de muitos livros e da vida.
 
Disse-me ele, em meio a pausas tantas, que  muitos, muitos anos atrás, numa região localizada lá no mundo do era uma vez, havia um rei muito poderoso que governava obedecendo às leis do país e à voz dos súditos - desde aquele tempo, já, equivocadamente, considerada a voz de Deus.
 
Assim, apoiando-se num servo e no cetro, o velho rei foi um dia percorrer os calabouços existentes nos porões do castelo.Aproximou-se da primeira cela e indagou:
 
- Por que estás presa, criatura?
 
Ouviu entre choramingos, a lamúria comprida:
 
- Majestade, sou vítima de horroroso erro judicial. Sou inocente. Jamais pus a mão numa única moeda que não merecesse. Sempre exerci minhas funções públicas com correção e desprendimento. Pouco me dediquei à família, preocupado que sempre estive com o bem estar do meu país.
 
Na cela seguinte, ocorreu somente alteração no vocabulário. A lamúria foi a mesma.
 
- Sou inocente, e Vossa Majestade comprovará isso ao examinar cuidadosamente o meu processo. Fui maldosamente acusado de corrupto, de lesar a nação, de ter-me enriquecido através de meios ilícitos. Não é verdade, Majestade. Cada moeda de ouro que o fisco localizou nos meus baús, resultou de presentes anônimos de admiradores do meu trabalho. Acredite, Majestade, nunca roubei.
 
Nas celas seguintes, as juras de inocência se repetiram em ladainhas molhadas de pranto, rezadas sempre com voz embargada, capaz de comover milhares de eleitores, se eles existissem naquele reino.
 
Por volta do meio-dia, o estômago do soberano já reclamava alimentação, seus tímpanos já reclamavam silêncio mínimo, quando seu séquito estacionou à porta de cela lá no fundo do corredor escuro, malcheiroso e úmido. O rei repetiu a indagação feita em todas as celas anteriores. Então, imperador e séquito se surpreenderam com a resposta:
 
- Estou aqui porque roubei dinheiro da saúde, da educação, de todos os ministérios onde consegui meter a mão. Ignorei todos os escrúpulos, todas as responsabilidades, falsifiquei documentos, enganei todos os bem-intencionados, ludibriei eleitores e companheiros de legenda que confiaram em mim. Infelizmente, cometi deslize bobo: confiei em subalternos que se esqueceram de deletar informações, de queimar documentos comprometedores. Enfim, fui apanhado nas frágeis teias da justiça. Assim sendo, Majestade, estou aqui porque cometi toda espécie de crime.
 
Nessa hora, o soberano esqueceu a fome, esqueceu os ouvidos machucados e, não podendo erguer-se como um atleta, levantou o cedro e gritou para que todos os presentes, todo o reino pudesse ouvir:
 
- Soltem este homem. Soltem este pecador. Soltem este culpado. Se ele ficar aqui, é bem capaz de corromper todos os inocentes que abarrotam as celas. Soltem este homem. Imediatamente. Protejam os pobres inocentes.
 
A história relatada pelo mineirinho – que ele assegura ser verídica e estar registrada nos anais do reino e ser conhecida de todos lá nas terras do era uma vez – veio-me à mente esta semana, ao assistir à procissão de homens públicos ocupando tribunas. Soube que todos – cinco dezenas deles, aproximadamente  – haviam sido injustamente acusados de corrupção.
 
Condoí-me de todos. Seus gritos e gestos de inocência e seu compromisso de provarem sua lisura no convívio com o bem público, trouxeram-me reflexões profundas. E, uma conclusão:
 
- Ah, se eu fosse imperador, salvaria esses inocentes. Eu os retiraria daquele antro que dizem ser a casa de leis e os manteria em celas onde nem seu físico, nem sua reputação pudessem ser alcançados.
 
 
Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, autor de 23 livros
 
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras