Sinais

Por: Eny Miranda

Para hoje, terça-feira, 17 de março, o serviço de meteorologia prevê fortes tempestades em parte do Sudeste Brasileiro, incluindo o norte de São Paulo, o sul de Minas Gerais e o Triângulo Mineiro. Justamente a nossa região.
 
São quase 18 horas. De onde estou, vejo o céu: cinza, mas não muito pesado. Na verdade, dá para acreditar que, se um ventinho mais ousado passasse lá por cima, o azul apareceria. Nada de cumulus nimbus, nada de chuva. Sobre o telhado vizinho, dois passarinhos se amam, equilibristas, no braço fino de uma antena de TV. Seria um sinal? Desenham no ar agitadas coreografias e, logo depois, abrem as asas e levantam voo. Novamente a janela é toda céu - cinza.
 
Busco (outros) sinais, mas, no momento, nada de diferente me chama a atenção.
 
Enquanto as águas de março lavam - ou prometem lavar - os últimos resquícios do verão, o cenário - neste austral hemisfério - pouco muda. 
 
Por enquanto...
 
Com o passar dos primeiros dias de abril, os ares costumam se fazer transparentes, sobretudo nos amanheceres. É sempre assim. A atmosfera se veste de uma beleza calma, sonhadora e melancólica, quase apaixonada. Odores adocicados e frutais vão chegando, lentamente, aproveitando qualquer fiapo de brisa, para penetrar casas e narinas. Se a chuva não foi suficiente para encher reservatórios, as manhãs o serão, para encher os olhos de sonhos; e os ocasos, para impregnar corações de doce melancolia. É assim que sempre acontece. 
 
Então chega maio. Com ele, um sentimento indefinível, um desejo (ou uma aceitação) que vem de muito longe, talvez da névoa de crepuscular memória, talvez nem isso: o perfume de algo ancestral, impalpável - mas presente - e dourado: um mel trazido de tempos imemoriais e derramado - principalmente - sobre o fim de cada dia (como de cada amor, de cada vida, de cada era), ou um “rubor dos incêndios que consumiam a terra.” 
 
Depois, vem o junho das noites frias, céu pulverizado de luzes muito brancas...
 
A tudo isso chamamos outono: prenúncio de fim ainda palpitante. 
 
Mas, acima de tudo, outono me lembra maio desfazendo os luminosos incolores de abril. Maio, por sua vez, me remete a sol da tarde, derretendo azul com o calor de chamas já frias. Tais momentos em mim se confundem num só outono: o dos maios e dos ocasos, seu ponto alto. 
 
Sensuais, coloridos, perfumados... extremamente metafóricos, assim são esses antecederes da morte (as muitas mortes pelas quais passamos).  Porque lembram ouro e mel de fruta madura; fogo derradeiro de sol antigo; ocre e ferrugem de folha entregue ao sopro que desgasta a pele da memória, mas não a desfaz. Porque ali, na verdade, não há morte: ali repousa “promessa de vida”. Downluz.
 
 
Eny Miranda, médica, poeta e cronista
 
 

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