Gaudêncio

Por: Everton de Paula

O cavaleiro desce contornando as moitas de assa-peixe e capim gordura alto e afiado. Aqui e acolá flores das mais diversas formas e cores. Uma capivara e sua prole atravessam ligeiro o caminho, ao contrário de algumas vacas que empacam e, desanimadas da vida rotineira, mastigando sempre o mastigado, desconversam e desconhecem a presença da gente, que espera e espanta. O ipê amarelo se destaca de doer a vista – tela de paisagista. Uma pequena área de mato roçado para novo plantio. Desce-se capoeira abaixo. Não há mais céu: a vegetação agora é teto cerrado, entrecruzado, causando sombra, umidade, silêncio e calafrio. Nenhum pássaro, nenhum pio, nenhum mugido, nada. Só a sensação de se estar desamparado. Torna a subir. Sai-se do capoeirão alto. Claridade, chão seco, passarada, segurança. Após os bambus, vencendo a última etapa, surge frondosa a paineira rompante e, à sua frente, a sede de outra fazenda. De propriedade dos Gonçalves.
 
O capataz ali habita com sua mulher e filharada. Doca, negrão de metro e oitenta, magro e encurvado. Quando sorri mostra a brancura dos dentes e um filetezinho de ouro incrustado. Ao contrário de Lombardi, é mais reservado, desconfiado, passos medidos, mais escutador que falador. O viajante apeia, mas vai sendo recebido de golinho, caminha aos poucos e é quase detido na varanda. Doca não escancara a casa, os cômodos de telhado à vista e paredes enegrecidas pela fumaça do fogão de lenha. Ali mesmo na varanda procura esgotar o assunto. A tarde anuncia seu cansaço e aos poucos vai cedendo lugar ao princípio de noite. Agora jeito não tem mais. Doca convida e o viajante fica para dormir, que a janta se perdeu pelas quatro da tarde. Grilos, vagalumes, estrelas, lua nova.
 
Na manhã seguinte, antes de seguir viagem, é só andar uns duzentos metros e se chega à moradia do retireiro, do roçador, do pau-mandado de Doca: Gaudêncio. Casebre pobre ao lado de um rego murcho, desmantelado. Em volta da casa simples, pés de milho levantam espigas.
 
Gaudêncio veio para cá oriundo de um orfanato católico de freiras, quando tinha quatorze anos. Aprendeu rezas e superstições. Simplório, sem um nada no bolso e sem história de vida, sem eira nem beira,  era pessoinha fácil de manipular. Numa visita ao orfanato, Doca viu nele as condições ideais de um futuro trabalhador braçal que se satisfizesse com pouco e desse muito de si para o trabalho da roça e do curral. Contou logo ao senhor Gonçalves que tratou de adotá-lo. Tudo de papel passado. Escola? Educação? Saúde? Família? Nada não, foi arranjado de tal forma que o menino se viu morando primeiro no casarão do Doca, no meio de sua filharada. De sua pobre maleta tirou um crucifixo que colocou sobre uma pequena mesa de madeira maciça. À noite, fazia do lampião de querosene as vezes de vela de capela... E rezava rezas que não entendia. Nem pedia nada, como também nada prometia. Tinha comida e muito serviço na roça. Ia vivendo como se tudo fosse muito natural, porque da vida vivida nada aprendera nos corredores e p
átio interno do orfanato. Então, não havia expectativas.  Ninguém o quisera... Só o Gonçalves e o Doca, logo os dois! Qual, tem assunto que só traz tristeza.  E assim Gaudêncio tornou-se moço, homem. Doca teve que lhe arrumar casa ali pertinho. E o fez.
 
Aliás, num raro momento de compaixão. Doca mobilhou-lhe a moradia: uma tosca mas firme cama de armação de bambus amarrados por cipó, colchão de capim, duas cadeiras de três pés, a cômoda sobre a qual ficava o crucifixo e a lamparina, uma mesa redonda que, na verdade, era uma imprestável roda de carro de boi, um armário... Na cozinha fixou na parede de tijolo à vista algumas tábuas que serviram de prateleiras. E só. O morador haveria de se arranjar no futuro.
 
Futuro.
 
Quando Gaudêncio saíra do orfanato pelas mãos de Gonçalves, recebeu de uma irmã católica um presente, talvez o único em toda sua vida: um pequeno exemplar de preces marianas. Na contracapa, com caprichada letrinha de aluna de colégio de freiras, lia-se: “Oremos sempre, porque a função do futuro é a de ser perigoso.”
 
Gaudêncio não decorou nenhuma das preces, não lhes entendia os significados, mas se apegou a essa quase dedicatória. Esqueceu o trecho inicial e guardou apenas a essência da mensagem: o futuro é perigoso! Isso sim, conseguia entender. Mas em que consiste o futuro para um caipira perdido no meio daquelas terras, sem contato regular com as gentes das cidades? Quem vive assim no meio do mato acaba virando mato, ou bicho dele. Parece que perde a essência do humano. Ora é folha que varre os grãos de café, ora é ramo que regula a corredeira do rego, ora é a extensão da própria enxada que carpe o chão... Quando vai virando homem,  dorme, se esquece para tudo recomeçar no finzinho da madrugada seguinte. O máximo que lhe permitiam era guiar a charrete, puxada por velho matungo,  até a porteira perto da ponte do Sapucaí, esperar parar a jardineira e, no meio do pó avermelhado, apanhar este ou aquele visitante ou viajante, traçar o caminho de volta e conversar dúzia e meia de palavras.
 
 
Everton de Paula, Academia Francana de Letras

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras