Razões para ler Dom Quixote

Por: Sônia Machiavelli

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O legista e diretor de busca dos restos mortais de Miguel de Cervantes (1547-1616), Francisco Etxebarria, confirmou na última  terça-feira  que entre os fragmentos encontrados na cripta da Igreja das Trinitárias, em Madri, e submetidos a testes de DNA, estão ossos  do  grande escritor. Este processo de identificação vinha se desenrolando desde o quarto centenário de publicação de Dom Quixote, que levou em 2005 as instituições espanholas a organizar agenda rica de celebração do autor de uma das obras primas da literatura universal, lida com interesse  por crianças e adultos em todo o mundo. A descoberta desta semana vai movimentar o setor turístico, estimular (mais ainda) o orgulho espanhol e motivar novas edições da obra que, ao parodiar as novelas de cavalaria, tornou-se o primeiro romance moderno.
 
Antes de Dom Quixote, Cervantes havia exercitado todos os gêneros literários conhecidos. Sua poesia recolheu recursos  nos múltiplos registros da tradição, do pranto lírico à ironia truculenta. Seu teatro tanto contemplou o leve tom burlesco como a densidade de uma odisseia. E os contos curtos o habilitaram à composição de uma psicologia dos personagens que elevará a um nível universal a soma das experiências mostradas nas aventuras  que com o tempo ganharam o adjetivo “quixotesco”.
 
A narrativa deste texto essencial mostra um ingênuo homem na Espanha dos Quinhentos, instalado num lugarejo no centro do país, e que de tanto ler romances de cavalaria  perdeu o juízo ao acreditar literalmente nas aventuras descritas. Vestindo  armadura, tomou o nome de Don Quijote de la Mancha e saiu montado num cavalo decrépito, Rocinante, em busca de aventuras.  Uma jovem e simplória camponesa que encontra no início de sua jornada é tomada por ele como delicada  nobre que  batiza como Dulcinea del Toboso e se torna objeto de sua devoção. Um tosco  camponês que atende pelo nome de Sancho Pança  se transforma no escudeiro que vai acompanhá-lo até o fim de seus dias. As viagens  que a dupla empreende se sucedem sob o império da alucinação. As pessoas humildes que Quixote divisa na estrada são cavaleiros  em armas. Moinhos de vento, gigantes em ação. Mulheres em prosaicas obrigações, damas em perigo. Situações equivocadas, captadas  de forma realista apenas por Sancho (e pelo leitor), constituem para Quixote espaços de combate às injustiças e luta pelos ideais cavalheirescos. No último capítulo da segunda parte, o herói morre depois de ter recobrado a razão e renunciado  às  novelas de cavalaria. Assim o revelará  seu epitáfio:  “Do mundo inteiro fez pouco/ doido emparelhado tampouco/ levou em conta a conjuntura/ pois julgou ser sua ventura/ morrer são e viver louco”. 
 
O narrador tece o relato encadeando as viagens dos dois personagens que vão sendo construídos à medida que a ação se desenrola. Opondo o mundo cavalheiresco e idealizado anterior aos anos 500, e o mundo renascentista e realista onde vive o autor, Quixote e Sancho Pança representam respectivamente o lado espiritual e nobre e o lado materialista e rude da natureza humana.
 
Sobre Dom Quixote, a crítica vem desvelando sentidos desde o ano da publicação da obra. Algumas constatações são unânimes. Quixote é o representante da alma espanhola num momento específico europeu,  quando a Renascença vai cedendo lugar histórico e estético ao Barroco, corrente que pretendeu em algum momento promover a espiritualização da carne e a carnalização do espírito. Quixote , voltado para o céu,  Sancho, agarrado à terra, ambos indissociáveis nas aventuras que protagonizam, personificam a dualidade do ser humano. À antítese, no plano geral, na forma de composição dos personagens e na contextualização realidade-ilusão , correspondem elementos estilísticos como a metáfora, o paradoxo, a hipérbole, a alusão, o jogo de palavras, o encadeamento dos membros da frase, os períodos assindéticos- que por sua vez refletem os episódios autônomos de estrutura circular.
 
Acho instigante  o comentário de Michel Foucaut em História da Loucura na Idade Clássica, sobre os muitos loucos que povoam as letras neste período em que a emergência da  razão não chega a definir-se senão expurgando de si tudo o que não é dela, ou seja, a loucura.  Erasmo, Shakespeare, Lope de Veja, Gusmán, Tristán e muitos outros, além de Velazquez que os leva às telas, fizeram dos loucos protagonistas no momento em que o pensamento ocidental é marcado pela descoberta de que o real e o racional coincidem no horizonte do espírito. Contrapondo-se  ao Discurso do Método onde Descartes  diz “Penso, logo existo”, Quixote fala manso, mas convicto: “Yo pienso y es así’.  Schopenhauer, filósofo da melancolia, comenta a frase: “ Dom Quixote exprime alegoricamente a vida de todo homem que não se contenta, como outros, em perseguir sua própria felicidade, mas deseja alcançar um objetivo específico, ideal, que esteja amparado por seu pensamento e sua vontade; é o que lhe confere, neste mundo, uma atitude singular.”
 
Só por isso valeria a pena ler Dom Quixote. Mas há outras razões para fazê-lo. Em  cada tempo da vida  este  livro ilumina o leitor de um jeito diferente. Por isso é um clássico.  
 
 
RETRATO DE CERVANTES
 
Em 1615  o embaixador da França em visita à Espanha quis conhecer Miguel de Cervantes Saavedra. Já na entrada da casa do escritor, um dos que faziam parte da comitiva perguntou a Márquez Torres, secretário do artista, como era Cervantes. “Velho, soldado, fidalgo e pobre”, ouviu como resposta. Essas palavras provocaram no visitante um comentário: “Se a necessidade o há de obrigar a escrever, praza a Deus que nunca tenha abundância, para que com suas obras, sendo ele pobre, faça rico a todo mundo”.
 
Apesar de se saber que a falta é muitas vezes motor para a criação, não foi a pobreza que fez de Cervantes um ser excepcional. A pobreza era muito comum na Espanha do seu tempo e ele mesmo diz em um conto que “ela se acirrava com os  fidalgos e bem- nascidos mais que com a outra gente”. A literatura não dava para viver e outros escritores contemporâneos levavam vida também difícil. Alguns ainda conseguiam a proteção de gente influente. Cervantes obteve alguma ajuda do arcebispo de Toledo e de dois nobres que o socorreram em momentos de muita dificuldade, de maneira a que continuasse escrevendo e sustentando sua família, formada por mulher, filha bastarda, mãe, duas irmãs e sobrinha. 
 
Oito anos depois  de Dom Quixote, em 1613,  publica  Novelas Exemplares; a que se seguem Viagem do Parnaso e  Oito comédias e oito entremezes, ambos em 1615. Neste mesmo ano termina a segunda parte do Quixote. No dia 19 de abril de 1616, escreve a dedicatória do Persiles, sua última obra, “posto já o pé no estribo para a morte”, conforme suas palavras. De fato, morreu quatro dias depois, por causa de uma hidropisia. Tinha 69 anos, idade muito avançada para sua época, quando a expectativa de vida não chegava aos 50. 
 
LIVRO
 
Título:  Dom Quixote de La Mancha (Clássicos da Literatura Universal)
Miguel de Cervantes Saavedra
Editora: Montecristo
 
Sonia Machiavelli,  professora, jornalista, escritora

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