Zé Mineiro

Por: Roberto de Paula Barbosa

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Morri. 
 
Abri meu solhos em lugar lúgubre, escuro, úmido e frio. Mão estendida, ajudando-me a levantar, quase não acreditei quando o vi. Zé Mineiro, meu amigo na vida anterior e, creio, eternamente.
 
- Zé, eu nunca esperava encontrá-lo agora, justamente neste momento em que eu mais preciso de ajuda! Estou perdido e nem mesmo sei onde estou.
 
- Você partiu daquela para melhor. A ajuda e sua compreensão vão depender de suas obras e atos na vida terrena. Eu, até hoje, ainda não estou entendendo bem o que faço aqui. Então continuo tentando ajudar as pessoas, dando continuidade àquilo que sempre achei que era o mais correto.
 
- Você não ficou com remorso ou preocupado com sua mulher, seus filhos e netos, quando nos deixou? Todos estão ainda em estado catatônico, pois estão perdidos sem sua presença. Seus irmãos e amigos estão sentindo falta de seus conselhos, da palavra amiga, de seus préstimos. 
 
- Acredito que sim, mas todos nós sabemos que essa hora chega. Uns mais cedo, quando já cumpriram sua missão; outros demoram um pouco mais, para completá-la. Alguns procuram abreviar a vida, pensando que sua missão também se abreviará. Ledo engano! Minha família logo vai entender que a vida não é para sempre e que tudo o que lá fizermos, nada nos aproveitará aqui, a não ser as nossas boas ações.
 
- Zé, não pode ser. Eu ainda tinha muitos planos. Minha mulher, minha mãe e meus filhos ainda precisam de mim. Eu faço tantas coisas pra eles que eu acho que vão ficar desnorteados sem a minha presença.
 
- As coisas que você fazia para eles eram coisas corriqueiras, banais, que qualquer um poderia fazê-las. Nada dessas coisas eram tão importantes. Será que os mais marcantes em sua vida foram essas coisas? Seu exemplo de vida foi positivo ou negativo para eles? Você praticou a caridade, visitou seus irmãos em hospitais, respeitou e amou seus semelhantes em qualquer situação? Você orou de verdade em favor dos amigos, irmãos e parentes, que também perderam suas vestes terrenas ou, simplesmente, frequentou os templos e mandou publicar mensagens de saudades, cumprindo, assim, um rito social?
 
- Zé, eu sempre contribuí com donativos a hospitais e instituições de caridade, mas não me lembro de ter visitado alguém nessas entidades. Só que também, que eu me lembre, nunca prejudiquei qualquer pessoa financeiramente.
 
- Não basta. Eu agora estou vendo que tudo isso é insuficiente para que tenhamos uma passagem tranquila para o plano espiritual. Em vida eu ajudava muitas pessoas com empréstimos, conselhos, doações de caridade, mas ainda é pouco. Estou vendo agora que é preciso fazer muito mais; amar intensamente nossos semelhantes, sem se apegar apenas em bens materiais, respeitá-los e às suas crenças, e mais, muito mais.
 
- Zé, estou achando muito estranho nós nos encontrarmos nessa situação. Como pode isso? Eu conversando com você, vendo você de terno e gravata! Se nós morremos, como pode isso estar acontecendo. Eu imaginava que, quando passamos daquela para melhor (será que é melhor mesmo?) nós iríamos sofrer as agruras das fogueiras do inferno ou, na melhor das hipóteses, navegar em sublimes nuvens macias e ondulantes, onde todos os “colegas” seriam ilustres desconhecidos. Mas agora vejo você e isto muito me anima, pois tenho com quem conversar, dar-me conselhos, conforto e alento.
 
Antes d’ele me responder, escutei uma campainha estridente – era meu despertador – e acordei banhado em suor e com uma sensação de que tudo o que vi e senti era real e nada tinha de fantasia.
 
Será que morri transitoriamente ou foi um mero sonho bom?
 
 
Roberto de Paula Barbosa, aposentado e leitor

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